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O Islam e o Estado na História Turca

Para compreender tanto a importância da vida e ensinamentos de Fethullah Gülen quanto a profundidade dos medos e acusações lançadas a ele por seus críticos, é necessário colocá-lo no contexto da história turca, especialmente dado que ela está ligada à complicada questão da religião e política. Durante toda história turca nunca houve completa separação entre o Islam e o Estado. Contudo, na nova república criada por Mustafa Kemal Atatürk em 1923, um dos seis pilares do Estado era o secularismo, baseado no modelo francês de controle da religião pelo Estado. Neste capítulo, esboçarei as maiores mudanças ocorridas na Turquia nos últimos 100 anos na definição do papel do Islam na política de Estado.

O Império Otomano

Durante grande parte dos séculos de Império Otomano (aproximadamente 1300-1922), havia uma relação próxima e simbiótica entre os sultões (líderes políticos) e os califas (líderes islâmicos). O Islam voltava-se para os governantes para proteção e os governantes, com frequência, utilizavam o Islam para sua legitimidade política.[1] Disso, surgiu uma relação intricada entre o Islam e o Estado.

O Império Otomano, além disso, era governado pela lei islâmica, sharia, que não dá direitos iguais a não muçulmanos. As principais autoridades religiosas oficias (ulemá) iam além dos assuntos religiosos e dominavam o sistema educacional e parte do sistema judiciário no império. O ulemá dirigia as madraças, ou escolas islâmicas, onde muitos dos oficiais de baixa ordem na burocracia otomana eram educados.[2]

As reformas, em meados do século IXX, tinham o objetivo de preservar o império em uma época em que derrotas militares enfraqueciam os sultões. Ao mesmo tempo, contudo, as autoridades religiosas constituíam a principal oposição às reformas otomanas, especialmente a tendência de desconsiderar a sharia em um esforço de modernização e garantia de igualdade para todos os cidadãos. Apesar da oposição do ulemá, os governantes otomanos criaram escolas de estilo europeu com professores europeus, assim como novos tribunais de justiça fora do sistema sharia. Em 1850, um código comercial tornou-se o primeiro a ser constituído fora da esfera de influência dos líderes religiosos. Simultaneamente, uma nova geração de jovens graduava das recém fundadas escolas de estilo europeu e foi enviada à Europa para educação superior. Esse quadro de estudantes tornou-se os Jovens Otomanos, que exigiam mais reformas e as alcançaram com a fundação de uma monarquia constitucional e com a primeira constituição otomana. Quando, um ano depois, o Sultão Abdulhamid II, dissolveu o parlamento e suspendeu a constituição, os Jovens Otomanos passaram à clandestinidade e evoluíram para os Jovens Turcos, que reapareceram no cenário turco nas primeiras décadas do século XX como o Comitê da União e Progresso (CUP) para guiar a Turquia à era republicana.

O Islam e o Estado no Início da Turquia Moderna

A partir de 1913, o CUP iniciou uma série de reformas que pavimentaram o caminho o total abandono da sharia e sujeitou os tribunais religiosos à autoridade dos tribunais seculares. Em 1915, os tribunais sharia foram colocados sob a jurisdição do Ministério da Justiça. O ulemá foi eliminado e o Islam foi colocado sob controle do Estado. As propriedades das fundações islâmicas foram transferidas ao Ministério das Finanças. Em 1924, o califado foi abolido, o Diretório de Assuntos Religiosos foi fundado como gabinete estatal para cuidar dos assuntos religiosos islâmicos, e o controle das escolas islâmicas (madraças) foi dado ao Ministério da Educação. O sistema lunar e solar do calendário islâmico foi abandonado exceto para uso em assuntos religiosos. O caminho estava pavimentado para a secularização trazida à tona pelo fundador da Nova República Turca, Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938).

Em 1923, os turcos, liderados por Ataturk, com a organização da resistência contra as forças invasoras gregas, apoiadas pelas potências ocidentais, ganharam a soberania sobre a Trácia Oriental e toda a Anatólia e transformaram a nação na República da Turquia. O principal objetivo de Atatürk era forjar um caminho muito diferente do Império Otomano, especialmente a criação de um Estado laico e nacionalista governado sem qualquer influência do Islam na política. A nova elite republicana, com Atatürk como líder e porta-voz, favorecia a completa modernização, o que ela via como uma saída ao atraso e expressava como aversão e desconfiança a tudo que era associado ao antigo regime e aos antigos modos de vida. Mais especificamente, a religião e as instituições religiosas eram suspeitas e consideradas antiéticas à civilização contemporânea.[3] Atatürk e seus seguidores kemalistas buscavam criar um novo Estado-Nação turco fundado explicitamente em nacionalismo étnico que substituiriam os valores multiétnicos, multireligiosos e voltados ao Islam do Império Otomano.[4]

Sendo um político magistral, Atatürk introduziu suas reformas vagarosamente e, inicialmente, utilizou o Islam para unir e mobilizar as pessoas, especialmente contra os exércitos invasores europeus.[5] Foi somente em 1924 que ele declarou que a o nacionalismo turco, em vez do Islam, seria o único fator a unir o povo turco.[6] O Estado usou o exército, as escolas e a mídia para consolidar a identidade nacional turca e distanciar-se do Islam e do legado otomano. Para conseguir isso e reduzir a influência do Islam, ele fechou os alojamentos dervixes e as ordens sufistas, baniu suas cerimônias e liturgias e declarou suas vestimentas ilegais. Ele censurou o fez como barrete das pessoas atrasadas e o véu como representação da subordinação das mulheres. O chamado para oração, ezan, seria entoado em turco em vez de árabe, e o Alcorão também seria traduzido paro o turco e impresso com alfabeto latino. Para ser mais ocidental e moderno, ele substituiu o alfabeto arábico pelo latino e adotou o calendário georgiano, em vez do islâmico. Ele também promoveu a igualdade para as mulheres e, em 1934, influenciou o direito da mulher ao voto na Turquia.

Em 1928, o Islam foi removido da constituição como religião oficial do Estado da Turquia. Enquanto permanecia parte integral da cultura turca, o papel central do Islam na política foi encerrado. Em 1973, o princípio do secularismo, de fato, substituiu o Islam na constituição.

O Secularismo de Atatürk

Entre 1925 e 1928, o parlamento kemalista[7] decretou uma série de medidas para secularizar a vida pública. Atatürk acreditava que a Turquia deveria deixar de lado seu passado e seguir o exemplo da Europa. Portanto, ele defendia a eliminação de todos os obstáculos à criação de um país nacional, laico e ocidental. Após alcançar a independência nacional, a república implementou um sistema laico rígido, negando qualquer papel ao Islam na formação da nova política.

O modelo secular que Atatürk introduziu à República da Turquia foi aquele do laicismo, ou laicite, o sistema copiado da Europa e da França, em especial. Essa é uma forma de secularismo que exige a exclusão de crenças e práticas religiosas da vida pública e espera que o Estado use seu poder para alcançar tal exclusão. O laicite é antirreligioso e busca controlar ou eliminar a religião, diferentemente do modelo anglo-americano de secularismo, que busca proteger as religiões da intervenção do Estado e encoraja relações sociais embasadas em religião para consolidação da sociedade.[8] O secularismo turco baseia-se na noção de transformação da sociedade por meio do poder do Estado, com a eliminação da religião da esfera pública. De fato, no sistema de laicite, qualquer tentativa de usar discurso religioso no debate público, mesmo no parlamento turco, pode ser usado para banir o partido ou indivíduo.

O laicismo tornou-se o princípio básico do empenho kemalista de construir um Estado-Nação em que a religião estava relegada ao reino privado e controlado pelo Estado. No Quarto Congresso do Partido Republicano do Povo, em 1935, Mustafa Kemal (popularmente conhecido como Atatürk), codificou suas ideias e objetivos com “kemalismo”, que constituía de seis princípios para guiar o partido e a nação: nacionalismo, secularismo, republicanismo, estadismo, reformismo e populismo. Os princípios foram informados pelas ideologias europeias dominantes na época, que percebiam a modernização como ocidentalização. A ideologia e prática do kemalismo eliminava fontes de conflitos de classe, étnicos e religiosos ao criar uma sociedade sem classes, nacionalista (i.e. turca) e secular, ou seja, destituída de qualquer prática ou símbolo religioso na esfera pública. Além do mais, com a forte influência do positivismo e laicismo francês entre a nova liderança, o único agente de mudança kemalista legítimo era o Estado em si. A nação e o Estado eram vistos como um só e todas as religiões, especialmente o Islam, foram excluídas do domínio público. Qualquer forma de agitação civil ou protesto popular era uma fonte de suspeitas e preocupação para o Estado.[9]

O laicismo kemalista colocava fé absoluta na ciência e no positivismo e priorizava a reestruturação da sociedade de acordo com esses princípios. Tal política, portanto, prevenia a influência religiosa nas esferas da educação, economia, família, vestimentas e política. O secularismo, nesse contexto, significa uma penetração excessiva do Estado na vida diária e a exclusão de diferenças étnicas e religiosas. A república turca estabeleceu o Diretório de Assuntos Religiosos para administrar e regular as necessidades e assuntos religiosos do povo na esfera pública. Portanto, todas as redes religiosas com base na sociedade civil foram banidas. Em 1937, esses princípios foram incorporados na constituição como princípios básicos do Estado. O sistema ideológico e político que resultaram desses princípios era e ainda é conhecido como “kemalismo”.[10]

O kemalismo tornou-se a ideologia da eliminação das fontes de conflito classe, étnicos e religiosos com a tentativa de criar uma sociedade homogênea, sem classes, turca e secular. Assim, o medo das diferenças tornou-se um princípio guia do Estado kemalista. Além do mais, kemalistas só viam mudanças como legítimas quando era executada pelo próprio Estado. Portanto, qualquer forma de modernização a partir das bases da sociedade civil era uma fonte de suspeita e preocupação, especialmente quando motivada por interesses religiosos, o que era considerado uma ameaça ao Estado laico.[11]

O princípio do laicismo ou secularismo se baseava no modelo francês de laicismo, em que a religião é colocada sob o controle do Estado e expressões religiosas oficiais são removidas da vida pública. Em 1801, a Igreja Católica na França, sob Napoleão Bonaparte, assinou uma Concordata que trouxe o controle do Estado sobre a igreja. De acordo com a Concordata, o Vaticano concordou que bispos poderiam ser nomeados pelo Estado francês e todos os sacerdotes seriam apontados e pagos pelo Estado. O secularismo turco, apesar de baseado no laicismo francês, foi ainda mais longe e estabeleceu total controle da religião pelo Estado. Não apenas os imams eram nomeados pelo Estado como servidores públicos, mas até mesmo o conteúdo dos sermões de sexta-feira era determinado pelo Estado, controle que continua na Turquia moderna.

O secularismo no contexto kemalista significava a penetração do Estado na vida diária e a exclusão de diferenças étnicas, religiosas e regionais. Yavuz e Esposito argumentam que “Contrário aos seus objetivos, o projeto kemalista de nacionalismo e secularismo, na verdade, ajudaram a construir um Islam opositor e ideologizado. Assim, revitalização religiosa tornou-se a dialética interna da ideologia kemalista”.[12] Medo das diferenças, especialmente diferenças religiosas, tornou-se um princípio guia do Estado kemalista e visto como uma ameaça ao Estado.

O sistema de laicite (ou laicismo) dominou a política turca durante os anos do Partido Republicano do Povo (1923-1950), período em que um único partido governou o país. A filosofia subjacente era que o Estado sabia melhor o que melhor para o povo e que o PRP estava protegendo o Islam da influência de línguas e culturas estrangeiras. [13]

O Sistema Multipartidário na Turquia

A mudança da Turquia para um sistema político multipartidário, em 1946, quando o Partido Democrático foi fundado, constituiu um momento decisivo na história da política turca, incluindo o papel do Islam no Estado turco. Naquele momento, o Islam estava sob o controle do Estado, mas continuava uma força moral e social efetiva na Turquia. O Partido Democrático criticava o total controle do PRP sobre o Islam. Para acalmar o DP, o primeiro-ministro começou a suavizar as políticas sobre o Islam, incluindo a adição de cursos sobre Islam no currículo educacional. Quando o PD foi eleito, em 1950, ele manteve uma abordagem semelhante ao secularismo, apesar de ter permitido a volta do chamado para oração em árabe, removido obstáculos que proibiam a prática e ensino religioso e construído novas mesquitas. Contudo, ele se opunha ao Islam político e provocações à natureza secular do Estado.

O PD apoiou uma mudança, no código penal turco introduzido pela administração anterior, do famoso Artigo 163 em que qualquer movimento que objetivasse mudar os sistemas social, econômico, político e judicial, mesmo que parcialmente, com base em princípios e crenças religiosas seria penalizado. Esse artigo reforçava o controle do Estado sobre a religião e assegurava que nenhum movimento islâmico emergiria para questionar aquele controle. O PD levou o Artigo 163 ainda mais longe em 1953, introduzindo penalidades a qualquer pessoa ou grupo que usasse a religião para ganhos pessoais ou políticos. Essa lei, portanto, estendeu o controle do Estado sobre a religião e deu ao Estado o poder de silenciar qualquer protesto embasado em ensinamentos religiosos.

Um golpe militar em 1960 derrubou o PD e, após o golpe, o Partido da Justiça (PJ) tornou-se sucessor do Partido Democrático. Necmettin Erbakan queria concorrer à eleição sob o Partido Democrático, mas foi recusado pelo líder do partido, Suleyman Demirel. Erbakan, que se tornara uma importante figura política e intelectual na história turca, foi eleito ao parlamento em 1969. Diz-se com frequência que ele “redefiniu o papel do Islam na política turca”.[14] Ele visava unir grupos islâmicos sob sua liderança política ao criar mudanças no sistema por meio do processo eleitoral. Por causa de suas tendências e ensinamentos islâmicos, ele foi banido da política sob o Artigo 163 por cinco anos. Contudo, no fim dos anos 1960, a Turquia, como a maior parte do mundo islâmico, estava ameaçada pela ideologia do socialismo. Uma alternativa para parar o crescimento do socialismo era o Islam. Até mesmo os Estados Unidos, como parte de sua política de contenção da Guerra Fria, esperavam parar o socialismo e o comunismo com a ajuda de “um cinturão verde islâmico”, o que incluía Turquia, Irã, Paquistão, Afeganistão, Indonésia e Malásia, todos países islâmicos. O Islam era visto como um antídoto para o socialismo e o mundo islâmico descobria um novo papel para o Islam na política. E Erbakan foi um dos maiores porta-vozes para a importância crescente do Islam na política mundial.

Erbakan argumentava consistentemente que ele não era contra o secularismo, mas contra a forma que o secularismo era praticado na Turquia. Ele queria uma redefinição do secularismo para permitir a livre prática da religião e debatia pela mudança do segundo artigo da constituição turca que define a natureza laica do estado e pode ser usado para atacar a religião à vontade do Estado.

Nas eleições de 1965, o partido AP (uma extensão do anterior Partido Democrático) assumiu o poder com Demirel como primeiro-ministro. Demirel era solidário aos muçulmanos praticantes e, ele próprio, frequentava as orações de sexta-feira. Oito anos depois o partido AP perdeu as eleições para o CHP (Partido do Povo) com Ecevit eleito primeiro-ministro. Ecevit sustentava que o povo precisa de religião e a religião pode alimentar do desenvolvimento.

O golpe militar de 1980, levou o recém-eleito Partido da Pátria (PP) ao poder sob a liderança de Turgut Ozal, que enfatizava a educação e moralidade islâmica como força contra o socialismo. Ozal apoiava a ideologia da Síntese Turco-Islâmica (STI), que combina os valores islâmicos com o nacionalismo turco. A STI abraçava o Islam como fonte de moralidade, mas rejeitava o Islam político.[15] Essa filosofia também apresentava o Islam como compatível com nacionalismo, democracia, kemalismo e capitalismo. Foi sob a administração de Ozal que a Turquia passou ao sistema econômico capitalista e começou a introduzir reformas democráticas. O infame Artigo 163 do código penal turco foi removido como parte do processo de democratização. Da mesma forma, a liberalização e crescimento econômico do período de Ozal permitiram a criação de uma classe empreendedora dinâmica e a oportunidade para a existência de jornais e canais de televisão independentes que não podiam ser silenciados por uma elite política.[16] O Partido da Pátria de Ozal combinou um programa econômico de orientação global com valores sociais conservadores.

Foi sob Presidente Ozal que a política econômica se tornou uma força motriz para a política externa turca. Ele enfatizou um programa voltado para exportação que abriu o país para o investimento estrangeiro e permitiu que as habilidades empreendedoras dos empresários turcos florescessem. Subsequentemente, o colapso da União Soviética abriu novas opções econômicas para a Turquia nas recém-independentes repúblicas da antiga União Soviética, especialmente no importante campo energético.[17]

Ozal argumentava que as restrições à liberdade de consciência geram fanatismo, não o oposto. Buscando combater os ideais islâmicos, ele exigiu instrução compulsória do Islam em todas as escolas.[18] Os membros do parlamento e do gabinete, visivelmente, frequentavam mesquitas. O véu foi permitido em público com base nas liberdades civis dos cidadãos garantidas pela constituição. Oponentes do véu argumentavam que Atatürk fizera dele o mais famoso símbolo da ordem islâmica e permiti-lo em público seria uma ameaça direta contra o Estado secular garantido pela constituição.[19]

O governo de Ozal também passou uma lei que permitia às estudantes universitárias usarem o véu, porém o tribunal constitucional turco reverteu essa decisão. Contudo, muitas estudantes universitárias continuaram a usar o véu. A questão do véu continua uma grande fonte de conflito entre grupos secularistas conservadores e radicais na Turquia. Enquanto os secularistas radicais consideram o uso do véu algo antisecular e antikemalista, secularistas liberais e conservadores o consideram um direito humano básico.

A questão do véu refletiu-se em um dos maiores impactos da política neoliberal de Ozal, ou seja, a expansão do Islam em lugares públicos. Isso resultou na pluralização da esfera religiosa e na expansão das redes religiosas na economia, na mídia e nos esforços de caridade. A desregulamentação das transmissões dos meios de comunicação, por exemplo, permitiu às vozes islâmicas, como aquelas no Movimento Gülen, expressarem-se em várias estações de rádio e canais de televisão e em jornais e revistas. Esses novos espaços criados sob a administração de Ozal serviram para dar poderes a grupos islâmicos na Turquia, incluindo aqueles inspirados por Gülen.[20]

Com a liberalização e diversificação econômica da Turquia, os públicos religioso e étnico foram gradualmente integrados na esfera pública e ganharam poder e influência informal. Uma das maiores estruturas pela qual isso aconteceu foi pelas dershanes, os círculos de encontros que se engajam em conversas, leituras inspirativas e oração e que proveem espaços sociais para socialização, discussão e criação de redes de contato. Um dos resultados desses círculos é a criação de novas oportunidades de comunicação e uma reação social em que ser um muçulmano devoto é promovido. Dessa maneira, a construção de uma nova consciência religiosa é criada, juntamente com um sentimento de responsabilidade social. Um dos maiores impactos desses círculos de leitura na vida social e política, portanto, é que a participação religiosa transbordou para outras esferas sociais ao oferecer às pessoas laços, redes e oportunidade para construir associações civis.[21]

Enquanto Erbakan estava banido da política por 10 anos, seus seguidores fundaram o Partido do Bem-Estar (PBE, conhecido como Partido Refah em turco ou RP) e foram eleitos para o parlamento em 1991. Cinco anos depois ele foi eleito primeiro-ministro da Turquia. Erbakan era declaradamente um muçulmano praticante que advogava há muito tempo um papel mais forte para o Islam na arena política. Com sua eleição, um extenso debate público sobre o papel da religião na política e o significado do “Islam político” no republicanismo foi iniciado[22]. Ele elogiou o Irã por resistir ao Ocidente e prometeu remover a Turquia da OTAN, estabelecer uma OTAN islâmica, uma ONU islâmica e uma versão islâmica da EU e uma moeda islâmica.[23] Além disso, o Partido do Bem-Estar articulou uma visão de democracia na Turquia pelo uso de um idioma religioso comumente compreendido, os valores tradicionais e os valore e moralidade islâmicos.[24] Essa retórica foi aplaudida pelos segmentos religiosos mais conservadores da sociedade turca e foi fortemente rejeitada pelos secularistas que temiam um Estado islâmico. Erbakan também fez uma série de visitas a países muçulmanos, uma ação que atraiu críticas dos secularistas.

Em 1997, uma alta comissão militar, conhecida como “Grupo de Trabalho Ocidental”, lançou uma investigação sobre o Partido do Bem-Estar. O resultado foi uma declaração do Conselho Nacional de Segurança (CNS), que via a si mesmo como guardião das reformas kemalistas e principalmente do secularismo, que dizia que “grupos separatistas e destrutivos estão tentando enfraquecer nossa democracia e sistema legal, obscurecendo a distinção entre secular e antisecular”.[25] Como resultado do relatório do grupo de trabalho promovido pelo CNS, o governo de Erbakan foi forçado a renunciar no que foi chamado de “golpe pós-moderno” e Erbakan, juntamente com outros líderes políticos do partido, foram banidos do governo por cinco anos e o partido foi fechado.

O CNS esboçou um plano com 18 pontos que deveria ser aceito antes que ele pudesse apoiar um novo governo. Esse plano visava reduzir a influência do Islam na Turquia e incluía propostas que impunham uma proibição a certas comunidades religiosas e organizações religiosas, o expurgo de funcionários “reacionários” de posições governamentais, restrições mais rígidas a “vestimentas politicamente simbólicas como o véu das mulheres” e o expurgo de oficiais militares por atividades e simpatias consideradas islâmicas.[26] Alguns analistas sustentam que desde o golpe militar de 1980, nada foi tão decisivo na vida política turca do que essas ações do CNS em fevereiro de 1997, pois o exército afirmou sua supremacia sobre a vida política na Turquia.[27] Em 1998, o Tribunal Constitucional fechou o Partido do Bem-Estar “por causa de ações contra os princípios da república secular”. Membros do partido deposto formaram um partido sucessor, o Partido da Virtude (PV) que subsequentemente se tornou o maior partido no Parlamento.

Em 1998, Mesut Yilmaz, líder do Partido da Pátria, formou um novo governo e tornou-se primeiro-ministro da Turquia e levou adiante o “Processo de 28 de Fevereiro”, cujo objetivo era limitar a influência islâmica na vida pública. Ele colocou restrições a admissões às escolas Imam-Hatip e instruiu o Ministério da Educação a impor regulamentos proibindo o uso do véu em escolas, universidades e locais públicos. A polícia deteve 20 importantes empresários muçulmanos sob acusações de que eles proviam fundos para atividades islâmicas. Um promotor-chefe em Ancara solicitou o fechamento da MUSIAD, a Associação de Empresários e Industriais independente que tinha nuanças “religiosas”.

Em meio às investigações de corrupção política e ligações com o crime organizado, em 1998, o governo de Yilmaz desmoronou. Ecevit, presidente do Partido Democrático de Esquerda (PDE), tornou-se primeiro-ministro. O governo foi efetivo em realizar uma tão necessária reforma econômica, instituindo legislações de direitos humanos e aproximando a Turquia de uma aceitação pela União Europeia. Uma série de choques econômicos levou a novas eleições em 2002 e levou ao poder o religiosamente conservador Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), estabelecido por Tayyip Erdogan, com 34% dos votos populares. Em 2007, o AKP ganhou as eleições novamente com uma maioria de votos ainda maior (46%) do que nas eleições anteriores e elegeu Abdullah Gul presidente e Erdogan primeiro-ministro.

O AKP retrata a si mesmo como um partido moderado, conservador, pró-Ocidente que defende uma economia de livre mercado e a adesão à EU. Publicações de negócios influentes como a The Economist consideram o governo do AKP o mais bem-sucedido em décadas.[28] Fulle, ex-vice-presidente do Concelho Nacional de Inteligência da CIA, mantém que a Turquia produziu dois movimentos islâmicos dinâmicos que têm importância significativa não apenas para a Turquia, mas para o Islam contemporâneo em geral: a política do AKP e o amplamente apolítico movimento comunitário de Fethullah Gülen.[29] O AKP prometeu respeitar as crenças políticas e apoiar valores morais, porém dentro do contexto de um Estado secular. Para o AKP, o secularismo significava a não interferência do Estado na prática religiosa, uma postura apoiada pelo Sr. Gülen e seus apoiadores. Na visão do AKP, a religião permanecia a mais importante instituição humana, criando uma ordem moral e social, no entanto, as instituições religiosas seriam melhor mantidas em um clima de liberdade religiosa.[30]

Enquanto críticos acusam o partido de fomentar uma agenda islâmica secreta, Erdogan mantém que o AKP não é um partido político com um eixo religioso, mas um partido pressionando por reformas democráticas e econômicas, além de enfatizar valores morais.[31] Erdogan tentou mitigar a imagem islâmica de seu partido com a construção de uma ampla coalisão com partidos de centro-direita e com o apoio do pedido turco de adesão à EU. Apesar das declarações do partido, o AKP trouxe muitas mudanças que podem ser interpretadas como não seculares ou enraizadas no islam. O partido foi acusado de colocar indivíduos antiseculares em posições governamentais e de conceder contratos governamentais a indivíduos que são mais voltados à religião. Em 2007, o AKP passou uma lei levantando a proibição do véu em todas universidades. Essas ações foram criticadas pelos partidos seculares e levaram aos indiciamentos protocolados no Tribunal Constitucional da Turquia exigindo o fechamento do AKP. A justificativa era que o AKP se tornara um “ninho de atividades antiseculares” e, portanto, violava a constituição da Turquia. Em 30 de julho de 2008, o Tribunal Constitucional deu seu veredito. O indiciamento para debandar o AKP falhou por um voto (cinco a favor e seis contra).[32]

Como essa breve história demonstra, problemas relativos à relação entre o Islam e o Estado dominaram a política turca desde o nascimento da República Turca em 1923 e mesmo antes, nas últimas décadas o Império Otomano. Nenhum problema sozinho foi tão potente ou controverso no cenário político turco e continua a dominar as relações eleitorais, legais e judiciais no país. Foi no contexto dessa história turca que Fethullah Gülen foi educado, desenvolveu suas ideias e treinamento religioso, foi um imam e famoso pregado, lançou o movimento que é agora internacional e prospera globalmente e atrai criticismo daqueles secularistas que temem que o Sr. Gülen está acumulando um forte séquito com o objetivo de, eventualmente, criar um Estado islâmico na Turquia.



[1] Balci (2007).

[2] Idem.

[3] Yilmaz (2005.

[4] Fuller (2008).

[5] Balci (2007); Yavuz e Esposito (2003).

[6] Yavuz (2005) diz que a Turquia pessonifica um paradoxo irreconciliável estabelecido durante a formação da República. De um lado, o Estado usou o Islma para unificar os diversos grupos etno-linguísticos; por outro, definiu sua ideologia civilizadora progessista em oposição ao Islam.

[7] Kemalista refere-se às ideias e políticas promovidas por Mustafa Kemal Atatürk.

[8] Yavuz e Esposito (2003).

[9] Idem.

[10] Cetin (2009).

[11] Yavuz e Esposito (2003).

[12] Yavuz e Esposito (2003).

[13] Balci T (2007).

[14] Balci (2007).

[15] Idem.

[16] Idem.

[17] Fuller (2008).

[18] A instrução compulsória do Islam foi incluído no currículo pelo líder do golpe militar de 1980, Kenan Evren, e Ozal simplesmente continuou a prática.

[19] Havia também argumentos citando o fato de que tanto a mãe quanto a esposa de Atatürk usavam o véu.

[20] Yavuz e Esposito (2003).

[21] Yavuz (2003).

[22] Cetin (2008).

[23] Mason (2000); Howard (2001).

[24] Cetin (2008).

[25] Howard (2001); Howe (2000).

[26] Cetin (2008).

[27] Aras e Bacik (2000).

[28] The Economist (3/5/2007).

[29] Fuller (2008).

[30] Mecham (2004).

[31] Turkish Daily News (22/7/2007)

[32] Hurriyet (30/7/2008).

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