A Necessidade do Diálogo Inter Religioso

Hoje, as pessoas estão falando sobre muitas coisas: o perigo de  guerra e os frequentes conflitos, a poluição da água e do ar, a fome, o aumento da erosão dos v alores morais, etc.. Como resultado, muitas outras considerações surgiram: paz, contentamento, ecologia, j ustiça,  tolerância e diálogo. Infelizmente, a despeito de certas promessas e precauções, aqueles que podiam atacar esses problemas tendem a fazê-lo procurando mais meios de conquista e controle da natureza e na produção de mais armas letais. O material obsceno está se espalhando através das massas, especialmente pela internet.

Na raiz do problema está o ponto de vista materialista que limita severamente a influência religiosa na v ida social contemporânea. O resultado é o corrente perturbador equilíbrio entre a humanidade e a natureza e entre o homem e a mulher individuais. Apenas poucas pessoas parecem dar conta que a h armonia social e a paz com a natureza, entre as pessoas, e entre o indivíduo só podem ser conseguidas quando o reino material e o espiritual estão conciliados. A paz com a natureza, paz e j ustiça na  sociedade e a integridade pessoal são possíveis quando alguém está em paz com o Céu.

A religião reconcilia os opostos que parecem ser mutuamente exclusivos: Religião-c iência, este mundo e o próximo, a natureza e os livros divinos, o material e o espiritual e o e spírito e o corpo. A religião pode erguer uma defesa contra a destruição causada pelo  materialismo científico, coloca a c iência em seu devido lugar e acaba com os conflitos duradouros entre nações e povos. As ciências naturais, que deveriam atuar como passos de luz orientando as pessoas a Allah, tornaram-se um motivo de d escrença em escala previamente desconhecida. À medida que o O cidente se torna a base principal dessa crença e porque o cristianismo tem sido a religião mais influenciada por ele, o d iálogo entre muçulmanos e cristãos parece ser indispensável.

A meta do d iálogo entre as religiões do mundo não é simplesmente destruir o m aterialismo científico e os destrutivos pontos de vista materialistas; ao contrário, a própria natureza da religião exige esse d iálogo. O  judaísmo, o cristianismo e o Islam, e mesmo o hinduísmo e outras religiões que aceitam a mesma fonte para eles, e inclusive o budismo, procuram a mesma meta. Como muçulmano, aceito todos os profetas e livros enviados para diferentes povos através da h istória, e considera crer neles como princípio essencial de ser muçulmano. O muçulmano é um verdadeiro seguidor de A braão, de  Moisés, de Davi, de J esus e de todos os profetas (que a paz de Allah esteja com todos eles). Não crer em um profeta ou livro significa que a pessoa não é muçulmana. Assim, admitimos a unicidade e a u nidade básica da religião, que é uma sinfonia das mercês e da m isericórdia de Allah e da universalidade da crença na religião. Assim, a religião é um sistema de crença abrangendo todas as raças e todas as crenças, uma estrada de todos juntos em fraternidade.

Não importa como os aderentes melhoram sua f é em suas vidas cotidianas, os valores geralmente aceitos como amor, r espeito,  tolerância, p erdão,  misericórdia, d ireitos humanos, paz, fraternidade e  liberdade são exaltados pela religião. A maioria concorda com a sublime precedência nas mensagens trazidas por M oisés,  Jesus e Muhammad, (Alaihimus Salam) bem como nas mensagens de Buda e mesmo Zaratustra, Lao Tse, Confúcio e os sábios hindus.

Temos uma tradição profética quase unanimemente registrada na literatura tradicionalista que J esus retornará quando se aproximar o fim do mundo. Não sabemos se realmente reaparecerá fisicamente, mas entendemos que no fim dos tempos, valores como amor, paz, fraternidade, p erdão,  altruísmo, m isericórdia e  purificação espiritual terão precedência, como aconteceu durante o ministério de J esus. Além disso, porque  Jesus foi enviado aos  judeus e porque os profetas hebreus exaltaram esses valores, é necessário estabelecer um d iálogo com os  judeus bem como um relacionamento mais próximo e c ooperação entre o Islam, o cristianismo e o j udaísmo.

Há muitos pontos em comum para o d iálogo entre devotos muçulmanos, cristãos e j udeus. Como apontado por Michael Wayschogrod, um professor americano de f ilosofia, há tantas razões teóricas ou confessionais para muçulmanos e j udeus se atraírem uns aos outros como há para j udeus e cristãos se aproximarem.1 Além disso, pratica e historicamente, o mundo muçulmano tem um bom registro de tratar com os j udeus: Não havia  discriminação, nem holocausto, negação dos d ireitos humanos básicos ou genocídio. Ao contrário, j udeus sempre foram bem-vindos nos tempos de distúrbios, como quando o Estado O tomano os acolheu depois de sua expulsão da A ndaluzia (Espanha).

AS DIFICULDADES MUÇULMANAS NO DIÁLOGO

 Cristãos, j udeus e outros podem enfrentar dificuldades internas no d iálogo. Gostaria de fazer um breve estudo de certas razões porque os muçulmanos acham difícil estabelecer d iálogo. As mesmas razões são responsáveis pela má compreensão do Islam.

De acordo com Fuller e Lesser, apenas no último século muito mais muçulmanos foram mortos por poderes ocidentais do que cristãos mortos por muçulmanos através da h istória.2 Muitos muçulmanos tentam produzir mais resultados compreensivos, e acreditam que as políticas ocidentais são designadas para debilitar o p oder muçulmano. Essa experiência histórica leva mesmo muçulmanos cultos e cônscios a crer que o O cidente continua seus mil anos de agressão sistemática contra o Islam e, o pior, com métodos mais sutis e sofisticados. Consequentemente, o apelo da I greja por  diálogo encontra considerável suspeita.

Além disso, o mundo islâmico entrou no século vinte sob o domínio direto ou indireto europeu. O Império O tomano, o defensor e o maior representante deste mundo colapsou devido aos ataques europeus. A T urquia seguiu as lutas dos povos muçulmanos contra as invasões estrangeiras com grande interesse. Além disso, os conflitos internos turcos entre o partido democrático e o partido popular em 1950 fez com que o Islam fosse considerado pelos conservadores e por alguns intelectuais como uma ideologia de c onflito, de reação e um sistema político, em vez de religião destinada ao  coração, ao e spírito e à mente. Considerando o Islam como um partido ideológico em alguns países muçulmanos, inclusive na T urquia, contribuiu para essa impressão. Como resultado, os secularistas e outros começaram olhar todos os muçulmanos e as atividades islâmicas como suspeitas.

O Islam, também, é visto como uma ideologia política, pois foi o grande dinâmico nas guerras de i ndependência dos muçulmanos. Assim, passou a ser identificado como uma ideologia de  independência. A ideologia tende a separar, enquanto a religião significa esclarecer a mente juntamente com a crença, com o contentamento e a tranquilidade do c oração, sensibilidade na  consciência e percepção através da experiência real. Por sua natureza, a religião penetra as virtudes essenciais como f é, amor,  misericórdia e compaixão. Reduzindo a religião a uma ríspida ideologia política e a uma ideologia de massa de i ndependência ergueu barreiras entre o Islam e o O cidente, e fez com que o Islam fosse mal compreendido.

O retrato do domínio histórico cristão ao Islam também tem diminuído a coragem dos muçulmanos com r espeito ao  diálogo inter religioso. Por séculos, os cristãos afirmaram que o Islam era uma cruel e distorcida versão do j udaísmo e cristianismo, e o  Profeta era um impostor, um mero ou engenhoso trapaceiro, o antiCristo, ou um ídolo adorado pelos muçulmanos. Mesmo livros recentes o apresentam como alguém com ideias estranhas que acreditava que teria de ter sucesso a qualquer custo, e recorreu a todos os meios para alcançar o sucesso.

O DIÁLOGO É IMPERATIVO

O d iálogo inter religioso é imperativo hoje em dia, e o primeiro passo para o seu estabelecimento é esquecer o passado, ignorar os argumentos p olíticos e dar preferência aos pontos comuns que sobrepujam em muito os pontos polêmicos. No O cidente, algumas mudanças de atitude podem ser vistas em alguns intelectuais e clérigos a r espeito do Islam. Devo mencionar particularmente o Massignon, que se referiu ao Islam pela expressão: “A f é de  Abraão (Alaihis salam) revivida por Muhammad (sallalláhu alaihi wa sallam)”. Ele acreditava que o Islam tinha uma missão positiva, quase profética no mundo pós cristão, uma vez que: “O Islam é a religião da f é. Não é a religião da  fé natural em Deus dos filósofos, mas a f é no Deus de  Abraão, de I saac e de  Ismael, a f é em nosso Deus. O Islam é um grande mistério da Vontade Divina.” Ele acreditou na autoria divina do A lcorão e na profecia de Muhammad (sallalláhu alaihi wa sallam).3

A perspectiva ocidental em nosso P rofeta também tem abrandado. Juntamente com os clérigos cristãos e homens religiosos, muitos pensadores ocidentais ao lado de Massignon, como Charles J. Ledit, Y. Moubarac, Irene-M.  Dalmais, L. Gardet, Norman Daniel, Michel Lelong, H. Maurier, Oliver Lacombe e Thomas Merton expressam simpatia tanto pelo Islam como pelo nosso P rofeta, e dão apoio ao d iálogo.

Também, o que a declaração do Concílio Vaticano II, que começou com o processo de d iálogo, disse a  respeito do Islam não pode ser ignorado. Isso significa que a atitude da I greja Católica em relação ao Islam mudou. No segundo período do Concílio, o P apa Paulo VI disse:

Por outro lado, a I greja Católica está olhando para além dos horizontes da cristandade. Está se virando para outras religiões que preservam o conceito e o significado de Deus como Único, Transcendental, Criador,

Soberano do Destino e Onisciente. Essas religiões adoram a Deus com sincera e devotada ação.

Ele também indicou que a I greja Católica recomendou os lados religiosos humanos bons e verdadeiros:

A I greja reafirma a eles que na  sociedade moderna para salvar os significados da religião e s ervidão a Deus – uma necessidade da verdadeira c ivilização – a própria  Igreja irá assumir o seu lugar como um resoluto advogado dos d ireitos humanos de Deus.

Como resultado final, a declaração escrita afirmou: “A Declaração a Respeito das Relações da I greja com as Religiões não Cristãs”, que foi aceita no Concílio, declarou que:

No nosso mundo que se tornou menor e em que as relações se tornaram mais estreitas, as pessoas esperam da religião respostas a r espeito dos enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o p ecado? donde provém o s ofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a f elicidade verdadeira? que é a  morte, o juízo e a retribuição depois da m orte? finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa e xistência, do qual vimos e para onde vamos?     

Após indicar que as diferentes religiões tentam responder essas questões a seu próprio modo, e que a I greja não rejeita todos os valores das outras religiões, o Concílio encoraja os cristãos a terem  diálogo com membros de outras religiões:

Exorta por isso seus filhos a que, com prudência e amor, através do d iálogo e da colaboração com os seguidores de outras religiões, testemunhando sempre a f é e vida cristãs, reconheçam, mantenham e desenvolvam os bens espirituais e morais, como também os valores sócioculturais que entre eles se encontram.

Outro importante ponto é que o Papa João Paulo II admitiu em sua “Cruzando o Limiar da Felicidade” que (apesar da negligência e indiferença muçulmana), são os muçulmanos que adoram da melhor e mais cuidadosa forma. Ele lembrou seus leitores que, nesse ponto, os cristãos deveriam tomar os muçulmanos como exemplo.

Além disso, a resistência islâmica à ideologia materialista e seu importante papel no mundo moderno têm assombrado muitos observadores ocidentais. As observações de E.H. Jurji são muito significantes aqui:

No seu auto-r espeito, na sua auto manutenção e o zelo realístico, em sua l uta pela solidariedade contra o racismo e as ideologias marxistas, em sua vigorosa denúncia de exploração, como é na divulgação de sua mensagem a uma obstinada e sangrenta humanidade, o Islam enfrenta o mundo moderno com o peculiar senso da missão. Não confuso e não arrasado pela massa de sutilezas teológicas, nem enterrado entre um pesado fardo de dogmas, esse senso de missão tira sua força de uma completa convicção de relevância do Islam.5

Os muçulmanos e o O cidente têm lutado entre si por quase 1400 anos. De uma perspectiva ocidental, o Islam ameaçou e abriu muitas portas ocidentais, fatos que não foram esquecidos. Isso diz: o fato que essa l uta está levando os muçulmanos a se oporem e indignarem-se com o O cidente não irá nunca beneficiar o Islam e os muçulmanos. Os transportes modernos e a comunicação de massa tornaram o mundo numa aldeia global em que cada relação é interativa. O O cidente não pode exterminar o Islam ou os seus territórios, e os exércitos muçulmanos não mais marcham sobre o O cidente.

Além do mais, como esse mundo está se tornando mesmo mais global, ambos os lados sentem a necessidade de uma relação toma lá dá cá. O O cidente tem supremacia científica, tecnológica, econômica e militar. O Islam, porém, possui fatores mais importantes e mais vitais: O Islam, como é apresentado pelo A lcorão e pela Sunna, reteve o frescor de suas crenças, a essência espiritual, os bons atos e a m oralidade como o fez nos últimos quatorze séculos. Além disso, possui o potencial de insuflar o e spírito e a vida nos muçulmanos, adormecidos por séculos, bem como em muitos outros povos mergulhados no pântano do m aterialismo.

Como a religião não escapou ainda das investidas furiosas da  descrença baseada na c iência e na  filosofia, ninguém pode garantir que essa tempestade não mais soprará com mais força no futuro. Esses e outros fatores não permitem aos muçulmanos verem e apresentarem o Islam puramente como uma ideologia política ou um sistema econômico, nem permitem aos muçulmanos considerar o  Ocidente, o cristianismo, o j udaísmo e mesmo as outras grandes religiões, como o budismo, de uma perspectiva histórica e define sua atitude de acordo com elas.

Quando aqueles que adotaram o Islam como uma ideologia política, em vez de uma religião em seu verdadeiro sentido e função revejam suas auto proclamadas atividades islâmicas e atitudes, especialmente seus p olíticos, descobrirão que a força propulsora é geralmente pessoal ou motivada por irritação nacional, h ostilidade e algo similar.

Se esse é o caso, devemos aceitar o Islam e adotar uma atitude islâmica como o ponto inicial fundamental para a ação, em vez da situação opressiva existente. O P rofeta (sallalláhu alaihi wa sallam) definiu os verdadeiros muçulmanos como aqueles que são os mais fidedignos representantes da paz universal. Os muçulmanos viajam a todo lugar com seus sublimes sentimentos que acalentam profundamente em seus espíritos. Ao contrário de infligir tormentos e sofrimentos, são lembrados como símbolos de garantia e  segurança. Em seus olhos, não há diferença entre a violação física ou verbal, tais como calúnia, falsa acusação, insulto e exposição ao ridículo.

O nosso ponto de partida deve ter bases islâmicas. Os muçulmanos não podem agir com padrões ideológicos ou p olíticos e então vesti-los com o manto islâmico ou representar meros desejos como ideias. Se podemos sobrepujar essa tendência, a imagem verdadeira do Islam irá ser conhecida. A imagem distorcida atual do Islam que resultou de seu mau uso, tanto por muçulmanos como por não muçulmanos para o seu próprio objetivo, assustam tanto muçulmanos como não muçulmanos.

Sidney Griffith aponta um importante fato de como o O cidente vê o Islam: Nas universidades americanas, o Islam não é ensinado como ma religião em escolas teológicas, mas como um sistema político nas ciências políticas ou departamentos de relações internacionais. Essa percepção também é encontrada entre os segmentos ocidentalizados do mundo islâmico e os não muçulmanos na Á sia e na África. Suficientemente estranho é que muitos grupos que se colocam sob a bandeira do Islam exportam e realmente fortalecem essa imagem.

O APELO UNIVERSAL DO ISLAM PARA O DIÁLOGO

Quatorze séculos atrás, o Islam fez o maior apelo ecumênico que o mundo viu. O A lcorão chama os povos do Livro7:

“Dize-lhes: Ó adeptos do Livro, vinde, para chegarmos a um termo comum, entre nós e vós: Comprometamonos, formalmente, a não adorarmos senão a Allah, a não Lhe atribuirmos parceiros e a não nos tomarmos uns aos outros por senhores, em vez de Allah.Porém, caso recusem, dize-lhes: Testemunhai que somos muçulmanos.” (3:64)

Esse apelo feito no nono ano da Hégira começa com lá (não!) na declaração de f é: Lá illaha illalláh (Não há outra divindade além de Allah). Mais do que uma ordem para fazer algo positivo, é um chamado para não se fazer certas coisas. Assim, aqueles seguidores das religiões reveladas podem sobrepujar sua mútua separação. O apelo representa o estado mais amplo em que os membros de todas as religiões possam aceitar. Em caso de ser rejeitado o apelo, os muçulmanos não eram responsáveis: “Vós tendes a vossa religião e eu tenho a minha.” (109:6). Isto é, se vocês não aceitarem esse apelo, nós nos rendemos a Allah. Vamos continuar na senda que aceitamos e deixamos vocês seguirem a sua própria senda.

Elmalili Hamdi Yazir, um turco famoso interpretador do A lcorão, fez as seguintes interessantes observações a r espeito desse versículo:

Ele mostrou como várias consciências, nações, religiões e livros podem unir em uma c onsciência essencial e palavra da v erdade, e como o Islam mostrou ao domínio humano uma ampla, aberta e verdadeira senda da salvação e a l ei da  liberdade. Foi mostrado inteiramente que não é limitado aos árabes ou não árabes. O p rogresso religioso é possível não pelo fato de as consciências serem estreitas e separadas uma da outra, mas por serem universais e amplas.

O Islam deu essa amplitude de c onsciência, essa ampla senda de salvação, e essa l ei de  liberdade a nós como presente. Bediüzzaman Said Nursi explica esse amplo panorama do Islam de uma observação contemplativa que ele teve na mesquita de Bayezid em Istambul:

Uma vez pensei a r espeito do pronome “nós” oculto no versículo: “Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda.” (1:5), e meu c oração procurou a  razão de “nós” ser usado em lugar de “eu”. Repentinamente descobri a  virtude e o segredo da oração em congregação daquele pronome “nós”.

Vi que, ao fazer a minha oração em congregação na Mesquita Bayezid, cada indivíduo na congregação se tornou uma espécie de intercessor por mim, e à medida que recitava o A lcorão lá, todos testemunhavam por mim. Obtive a coragem da grande e intensa s ervidão da congregação para apresentar minha insuficiente s ervidão à Corte Divina.

De repente, outra r ealidade se revelou: Todas as mesquitas de Istambul se uniram e ficaram sob a autoridade da Mesquita Bayezid. Tive a impressão que elas me confirmaram em minha causa e me incluíram em suas orações. Naquele tempo, vi-me na mesquita terrena, em filas circulares ao redor da Caaba. Eu disse: “Louvado seja o Senhor do Universo. Tenho tantos intercessores; estão dizendo a mesma coisa que eu disse em minha oração e me confirmando.”

À medida que essa r ealidade foi revelada, senti que estava em pé, orando, em frente à abençoada Caaba. Tirando vantagem dessa situação, tomei as filas de adoradores como testemunhas e disse: “Presto testemunho de que não há outra divindade além de Allah; presto testemunho que Muhammad é o M ensageiro de Allah.” Confiei esse testemunho de f é à sagrada Pedra Negra. Enquanto estava depositando a c onfiança, de repente outro véu se abriu. Vi que a congregação em que eu me encontrava estava separada em três círculos:

O primeiro círculo era uma ampla congregação de c rentes muçulmanos e aqueles que acreditavam na e xistência e na Unidade de Allah. No segundo círculo, vi todas as criaturas cumprindo a maior oração e invocação de Allah. Cada classe ou espécie estava ocupada com a sua única invocação e litanias a Allah, e eu estava entre aquela congregação. No terceiro círculo vi um domínio surpreendente que estava extremamente pequeno, mas na  realidade, amplo na perspectiva do d ever praticado e na sua qualidade. Dos átomos do meu corpo para os sentidos exteriores, havia uma congregação ocupada com a  servidão e a gratidão.

Em resumo, o pronome “nós” oculto na expressão “adoramos” apontou essas três congregações. Imaginei o nosso P rofeta (sallalahu alaihi wasallam) o tradutor e o propagador do A lcorão, em Madina, onde estava se dirigindo à humanidade, dizendo: “Ó humanos, adorai ao vosso Senhor” (2:21). Como qualquer outro, ouvi seu comando em meu e spírito, e como eu todos nas três congregações responderam com a sentença: “Só a Ti adoramos.”9

COMO INTERAGIR COM OS SEGUIDORES DAS OUTRAS RELIGIÕES

No A lcorão, Allah diz:

“Eis o Livro que é indubitavelmente a orientação dos tementes a Allah.” (2:2)

Em seguida é explicado que os tementes são aqueles:

“Que crêem no desconhecido, praticam a oração e gastam daquilo com que os agraciamos; que crêem no que te foi revelado (ó Muhammad), no que foi revelado antes de ti e estão cientes da outra vida.” (2:3-4)

No início, usando um estilo suave e ligeiramente oblíquo, o  Alcorão chama as pessoas a aceitar os antigos profetas e seus Livros. Tendo tal condição desde o início, o A lcorão parece muito importante para mim quando inicia um d iálogo com os seguidores das outras religiões. Em outro versículo, Allah ordena:

“E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma.” (29:46)

Esse versículo descreve o método, a aproximação e a maneira que deve ser usada. O ponto de vista de Bediüzzaman quanto à forma e ao estilo de debate são extremamente significantes: “Qualquer um que esteja feliz com o derrotar o oponente em debate não tem merecimento.” Ele explicou mais: “Você nada ganha com essa derrota. Se você fosse derrotado e o outro fosse vitorioso, você pode ter corrigido um dos seus erros.” O debate não pode ser para o seu ego, mas para capacitar a v erdade de se manifestar. Em outro lugar é afirmado:

“Allah nada vos proíbe quanto àqueles que não vos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e equidade, porque Allah aprecia os equitativos.” (60:8)

De acordo com alguns, vários versículos criticam severamente o P ovo do Livro. Na  realidade, tal crítica é dirigida contra condutas erradas, pensamentos incorretos, resistência à v erdade, criação de  hostilidade e características indesejáveis. A B íblia contém mesmo críticas mais fortes aos mesmos atributos. Porém, imediatamente depois dessa aparentemente aguda critica e desafio, muitas palavras gentis são usadas para despertar os corações para a v erdade e plantar neles a esperança. Em adição, a crítica do A lcorão e a advertência sobre algumas atitudes e condutas encontradas entre j udeus, cristãos e p oliteístas também foram dirigidas aos muçulmanos que continuam satisfeitos com os mesmos. Tanto os companheiros e os interpretadores do A lcorão concordam com isso.

As religiões reveladas por Allah se opõem fortemente à desordem, à traição, ao c onflito e à  opressão. O Islam, literalmente significa “paz”, “s egurança” e “bem estar”. Naturalmente, baseado em paz, s egurança e  harmonia mundial, ele vê a g uerra e o  conflito como aberrações para se obter controle. Uma exceção é feita à auto defesa como quando um corpo tenta derrotar os germes que o atacam. A auto defesa deve seguir certas orientações, porém. O Islam tem sempre respirado paz e b ondade. Considerando a g uerra um acidente, ele estabeleceu regras para equilibrála e limitá-la. Por exemplo, ele toma a j ustiça e a paz mundial como base:

“Sede firmes na causa de Allah e prestai testemunho, a bem da j ustiça.” (5:8)

O Islam desenvolveu uma linha de defesa baseada em princípios que protegem a religião, a vida, a propriedade, a mente e a reprodução. O sistema legal moderno também faz isso.

O Islam concorda com os maiores valores da v ida humana. Ele vê o matar uma pessoa como o matar toda a humanidade, pois um simples assassinato engendra a idéia que qualquer pessoa pode ser assassinada. O filho de Adão, C aim, foi o primeiro assassino. Apesar de seus nomes não serem especificados no A lcorão ou na Sunna, aprendemos da B íblia que a má compreensão entre C aim e  Abel resultou em C aim matar injustamente  Abel em um ataque de i nveja. Assim, começou a época de derramamento de sangue. Por essa r azão, uma tradição registra o dito do  Mensageiro de Allah (sallalláhu alaihi wa sallam): “Qualquer pessoa assassinada injustamente, parte do p ecado do  crime é creditada ao filho de Adão, C aim, pois ele abriu o caminho da matança injusta.” O A lcorão também afirma que aquele que mata uma pessoa injustamente, com efeito, é como tivesse matado toda a humanidade, e aquele que salva outro, com efeito, é como ter salvo toda a humanidade (5:32).

O AMOR, A COMPAIXÃO, A TOLERÂNCIA E O PERDÃO: OS PILARES DO DIÁLOGO

A religião ordena o amor, a compaixão, a t olerância e o  perdão. Portanto, gostaria de dizer algumas palavras a r espeito desses fundamentais valores universais.

O amor é o mais essencial elemento em cada ser, a luz mais radiante, o grande p oder que resiste a e sobrepuja toda força. Ele eleva cada a lma que o absorve, e a prepara para a jornada para a  eternidade. Aqueles que fazem contato com a e ternidade, por intermédio do amor, trabalham para plantar em todas as almas o que elas recebem da e ternidade. Dedicam suas vidas ao sagrado  dever e suportam qualquer privação pela sua causa. Como eles inspiram “amor” com seus últimos suspiros, eles também irão respirar “amor” quando forem ressuscitados no Dia do Juízo.

O a ltruísmo, um exaltado sentimento humano, gera amor. Porém, quem tem a maior parte nesse amor e é o maior herói da humanidade, aquele que erradicou quaisquer sentimentos pessoais de ó dio e rancor. Esses heróis continuam a viver mesmo após a m orte. As elevadas almas, que diariamente acendem uma nova tocha de amor em seu mundo íntimo e tornam seus corações uma fonte de amor e a ltruísmo, são bem-vindas e amadas pelas pessoas. Elas recebem o direito à vida eterna de uma Corte Exaltada. Nem mesmo a m orte ou o Dia do Juízo pode remover os seus traços.

O amor, o mais reto caminho para o c oração de alguém, é o caminho do P rofeta. Aqueles que o seguirem não são rejeitados. Mesmo se alguém os rejeitar, muitos outros os acolhem. Uma vez que são acolhidos por meio do amor, nada os impede de atingir a sua meta.

Tudo fala de e promete compaixão. Portanto, o universo pode ser considerado como uma sinfonia de compaixão. O ser humano deve mostrar compaixão por todos os seres vivos, pois isso é uma exigência do ser humano. Quanto mais pessoas mostrarem compaixão, mais exaltados se tornam; quanto mais recorrem aos erros, à  opressão e à crueldade, mais são desgraçados e humilhados. Eles se tornam uma vergonha da humanidade. Ouvimos o P rofeta Muhammad (sallalláhu alaihi wa sallam) dizer que uma prostituta foi destinada ao Paraíso porque, por compaixão, deu água para um cão sedento, enquanto outra foi destinada ao Inferno por permitir que um gato morresse de fome.

Perdoar é uma grande v irtude. O  perdão não pode ser considerado como separado da v irtude, ou a  virtude como separada do  perdão. Todos conhecem o adágio: “Pequenos erros, grandes perdões.” Quão verdadeiro é isso! Ser perdoado significa um reparo, um retorno a uma essência de se encontrar novamente. Por essa r azão, a ação mais prazerosa na visão da Infinita  misericórdia é a atividade perseguida pelas palpitações desse retorno e dessa busca.

Toda a criação, tanto animada como inanimada, foi apresentada ao p erdão por meio da humanidade. Logo que Allah mostra Seus Atributos de Perdão através de seres humanos individuais, Ele coloca a b eleza de  perdão em seus corações. Enquanto Adão, o primeiro homem, desferiu um golpe em sua essência através da queda, que é de alguma forma, uma exigência da sua n atureza humana, o p erdão de Allah lhe deu uma mão e o elevou às fileiras da profecia.

Quando as pessoas ficam errando montados em transporte mágico é para pedir p erdão, superar a vergonha do  pecado pessoal e ignorar os pecados dos outros. J esus disse a um aglomerado de pessoas ávidas para apedrejar uma mulher: “Quem não tiver  pecado que atire a primeira pedra.” Pode alguém, que compreende essa relação de penalidade considere apedrejar alguém quando ele é também um candidato a ser apedrejado? Apenas os desafortunados que exigem que outros passem por certo teste de girassol podem compreender isso!

A malícia e o ó dio são as sementes do Inferno espalhadas entre as pessoas pela maldade. Em contraste àqueles que encorajam as maldades e tornam a terra num pedaço do Inferno, devemos levar p erdão àqueles cujos problemas estão os empurrando para o abismo. Os excessos daqueles que nem perdoam nem toleram os outros tornaram um ou dois séculos passados nos mais terríveis de todos os tempos. Se tais pessoas vão governar o futuro, ele será, de fato, um tempo temeroso. Assim, a maior dádiva da geração atual que pode ser concedida aos filhos e netos é ensiná-los como perdoar, mesmo em face da mais cruel conduta e mais transtornados eventos. Acreditamos que o  perdão e a t olerância podem curar a maioria das nossas feridas se esse instrumento celestial estiver nas mãos daqueles que entendem sua língua.

A nossa t olerância deve ser tão ampla que possamos fechar os olhos às faltas dos outros, mostrar r espeito por idéias diferentes e perdoar tudo que é perdoável. Mesmo quando os nossos d ireitos inalienáveis são violados, devemos respeitar os valores humanos e tratar de estabelecer a j ustiça. Mesmo perante os mais grosseiros pensamentos e cruéis ideias, com a precaução do P rofeta e sem transbordarmos, devemos responder com a brandura que o A lcorão chama de “palavras gentis”. Devemos fazer isso para que possamos tocar os corações das pessoas, seguindo o método constituído de c oração compassivo, de gentil abordagem e de conduta meiga. Devemos ter ampla t olerância que possamos nos beneficiar de ideias contraditórias, uma vez que nos forçam a conservar o  coração, o e spírito e a  consciência em boa forma, apesar de nada nos ensinarem.

A t olerância, que algumas vezes utilizamos em lugar do  respeito e da m isericórdia, da generosidade e da indulgência é o mais essencial elemento dos sistemas morais. É também uma fonte muito importante da disciplina espiritual e uma celestial v irtude de homens e m ulheres perfeitos.

Sob as lentes da t olerância, os méritos dos  crentes atingem uma nova profundidade e se estendem para o infinito; erros e faltas se reduzem em insignificância. Normalmente, o tratamento d’Aquele Que está além do tempo e do espaço sempre passa pelo prisma da t olerância, e esperamos por ela para nos abraçar e a toda a criação. Esse abraço é tão amplo que uma prostituta que deu de beber a um cão sedento atingiu a “Porta da Misericórdia” e se encontrou num corredor que se estende para o Céu. Devido ao profundo amor que sentiu por Allah e pelo Seu M ensageiro (sallalláhu alaihi wa sallam), um alcoólatra repentinamente se sentiu livre do v ício e se tornou companheiro do  Profeta. Com o menor favor divino, um assassino foi salvo de sua monstruosa psicose, virou-se na direção das fileiras mais altas que excederam sua capacidade natural, e as alcançaram.

Queremos que todos nos olhem através dessas lentes, e esperamos que as brisas da indulgência e do p erdão soprem constantemente ao nosso redor. Todos nós desejamos nos referir ao passado e ao presente como clima de t olerância e indulgência, que fundem e transformam, limpam e purificam, e então caminhar para o futuro sem ansiedade. Não desejamos que o nosso passado seja criticado, ou o nosso futuro seja obscurecido por causa do nosso presente. Todos nós esperamos amor e r espeito, esperança por  tolerância e  perdão, e desejamos ser cingidos por sentimentos de libertação e  afeição. Esperamos t olerância e  perdão de nossos p ais em resposta às nossas maldades no lar, de nossos professores pelas nossas travessuras na e scola, das vítimas inocentes pela nossa  injustiça e o pressão, do juiz e promotor na corte, e do Juiz dos Juízes (Allah) no Tribunal Supremo.

Porém, merecer o que esperamos é muito importante. Aquele que não perdoa não pode esperar p erdão. Veremos desrespeito à medida que somos desrespeitadores. Quem não ama não merece ser amado. Quem não abraça a humanidade com t olerância e  perdão não receberá indulgência e p erdão. Quem amaldiçoa aos outros só pode esperar ser amaldiçoado por eles. Os que amaldiçoam serão amaldiçoados, e quem golpeia será golpeado. Se os verdadeiros muçulmanos continuarem em seu caminho e tolerarem as maldições com os princípios alcorânicos como: Quando se deparam com palavras vazias ou condutas impróprias, eles generosamente não fazem caso. Se você se conduz com t olerância e sobrelevar suas faltas, outros se apresentarão para executar a j ustiça do Destino naqueles que amaldiçoam.

A ÚLTIMA PALAVRA

Aqueles que desejam reformar o mundo devem primeiro reformar a si mesmos. Para trazer os outros para a senda da viagem para um mundo melhor, devem purificar seus mundos íntimos do  ódio, do rancor e da i nveja, e adornar seu mundo exterior com virtudes. Aqueles que são desprovidos do a uto-controle, da  autodisciplina, que falharam em refinar seus sentimentos, podem parecer atraentes e perspicazes no início. Porém, não serão capazes de inspirar outros de forma permanente, e os sentimentos que surgem logo desaparecerão.

Bondade, b eleza,  honestidade e virtuosidade são a essência do mundo e da humanidade. Não importa o que aconteça, o mundo irá, um dia, encontrar essa essência. Ninguém pode evitar isso.

Notas

 Esse artigo foi apresentado originalmente como um documento perante o Parlamento das Religiões do Mundo, Cape Town, dezembro, 1-8 de 1999. Apareceu como uma edição revisada em Turkish Daily News (Janeiro, 11-12 de 2000) e em “The Fountain, 3:31 (Júlio-Setembro de 200): 7-8.

Ismail R. Faruqi, Ibrahimi Dinlerin Diyalogu (tradução), Istambul, 1995, 51-53. Originalmente publicado como Dialog of the Abrahamic Faiths (Diálogo das Crenças Abrahámicas)

Graham E. Fuller e Ian O. Lesser, Kusatilanlar-Islam vê Batinin Jeopolitigi, (trad.). Istambul, 1996, 41-42. Originalmente publicado como A Sense

of Siege: The Geopolitics of Islam and the West (Uma Sensação de Cerco: A Geopolítica do Islam e do O cidente).

Sidney Griffith, “Sharing the Faith of Abraham: The Credo of Louis Massignon, “Islam and Christian – Muslims Relations, (Compartilhando a Crença de A braão: O Credo de Louis Massignon, “O Islam e os  Cristãos – Relações Muçulmanas) 8, n° 2:193-210.

Traduzido do Suat Yildirim, ““Kilisevi islam He Diyalog Istemeye Sevkeden Sebepler” (O que Impeliu a I greja Dialogar Com O Islam?) (trad.), Yeni Umit, 16, 7.

Sidney Griffith, Zaman.

Although ahl al-kitab, “Povos do Livro,” é normalmente considerado se referindo aos cristãos e os j udeus. A Tradição islâmica aceita, em termos gerais, outros sistemas de crença como a zaroastriana, a budista ou a hindu sob a mesma categoria, como maiores dogmas de f é são similares ao do Islam.

7  Elmalili Hamdi Yazir, Hak Dini Kur’an Dili, Istambul, 2:1131 -32.

Said Nursi, The Letters, (As Cartas) 29ª Carta. Evangelho de João, Capítulo 8, Versículo 7.

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