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Fethullah Gülen e Kant sobre o Valor Humano Inerente e a Dignidade Moral

A própria palavra "humanismo" coloca o humano – o indivíduo, o grupo de indivíduos, as espécies, a forma do ser – no centro de suas preocupações. Portanto, há muito tempo, o humanismo reivindica que a vida humana em geral e as vidas humanas em particular têm alguma forma de valor inerente à condição humana. Além disso, o respeito a esse valor inerente ao ser humano, em muitos sistemas humanísticos, constitui o ponto de partida ou base para a moralidade fundamental. Ninguém articulou isso mais forte e coerentemente que o filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant. Em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes, publicado inicialmente em 1785, Kant tenta articular "o princípio supremo da moralidade”[i].

Ele tenta articular esse princípio em termos completamente racionais, não empíricos, a fim de evitar que ações morais sejam dependentes de circunstâncias, sentimentos humanos, caprichos ou condições. Tempo e espaço aqui não são suficientes para considerar os méritos ou conclusões do método de Kant no que diz respeito à ética racional frente a ética empírica, ou para resumir adequadamente a magnitude de seus argumentos. Portanto, vamos nos concentrar nos pontos mais relevantes de sua discussão sobre os seres humanos como fins em si mesmos e, como tais, possuidores de valor inerente que não deve ser denegrido.

O argumento de Kant na Fundamentação centraliza-se em três conceitos principais: razão, vontade e dever. Esses três conceitos estão entrelaçados de maneira muito específica e Kant passa logicamente de um para o outro a fim de criar o contexto para a sua filosofia ética. Ele começa com a vontade. A vontade, particularmente a boa vontade, é necessária para qualquer noção de moralidade. Kant afirma isso imediatamente na primeira seção de seu ensaio:

Não é possível pensar qualquer coisa no mundo, ou mesmo fora dele, que possa ser considerada irrestritamente boa, exceto uma boa vontade. A inteligência, a sagacidade, o julgamento e quaisquer talentos da mente que se queira nomear são sem dúvida, em muitos aspectos, bons e desejáveis, assim como o são as qualidades do temperamento, como a coragem, a resolução, a perseverança. Mas eles também podem se tornar extremamente ruins e prejudiciais se a vontade, que faz uso desses dons da natureza e que na sua constituição especial é chamada de caráter, não for boa... A visão de um ser que não é agraciado pelo toque de uma vontade pura e boa, mas ainda goza de prosperidade ininterrupta, nunca pode satisfazer um espectador racional e imparcial. Assim, uma boa vontade parece constituir a condição indispensável até para sermos dignos de felicidade.[ii]

Nada bom é possível, então, sem boa vontade, independentemente de quaisquer outros talentos ou capacidades que uma pessoa possa possuir. A boa vontade é como um estado de caráter básico e é indispensável para a ação moral. Kant continua sua análise movendo-se para o conceito de razão. A razão, segundo ele, separa os humanos dos animais de modo geral, mas, mais especificamente, a razão funciona nos humanos de tal maneira que ilumina uma diferença mais fundamental entre os seres humanos e outros seres vivos. Kant atua sobre o princípio de que a natureza projeta a constituição de cada ser organizado de forma que nenhum órgão existe nela sem que cumpra um propósito que só ele é projetado para atender da melhor maneira possível. Em outras palavras, cada órgão tem uma finalidade e a cumpre melhor do que qualquer outro órgão do ser vivo. Kant identifica a razão como uma espécie de órgão e questiona qual é o propósito dela para a vida humana. Ele diz:

Assim, se a preservação, o bem-estar ou, em uma palavra, a felicidade desse ser fosse o verdadeiro objetivo da natureza, tendo o ser razão e vontade, então a natureza teria feito um arranjo muito pobre em destinar a razão a essa finalidade. Pois, todas as ações que tal ser precisa executar para esse fim e toda gama de regras para sua conduta teriam sido melhor prescritas pelo instinto: e o propósito em questão poderia ser alcançado com mais precisão pelo instinto do que jamais poderia ser alcançado pela razão.[iii]

Aqui, Kant afirma que a conquista da felicidade, definida como nossa preservação ou bem-estar, não é função da razão nos seres humanos ou em seres que possuem vontade e razão. Bem-estar, preservação e alegria podem ser conseguidos por instinto tanto quanto ou melhor que pela razão, tal como nos animais. Portanto, Kant diz que "a existência tem outro propósito mais valioso para o qual, e não para felicidade, a razão é mais apropriadamente destinada"[iv]. Kant conclui que o propósito da razão é desenvolver a boa vontade. Ele diz: “a razão reconhece o seu destino prático supremo no estabelecimento de uma boa vontade, de forma que, ao alcançar tal fim, a razão é capaz de sentir apenas a satisfação que lhe é particular”[v].

O que é a boa vontade? Como pode ser definida? Em suma, Kant define a boa vontade nos seres humanos como a capacidade de agir por dever apenas e não de acordo com as circunstâncias ou sentimentos. Essa definição nos alerta para a principal preocupação de Kant em seu ensaio: encontrar uma base sólida para a moralidade. Na opinião dele, os sistemas morais que se concentram em prazer, felicidade ou sentimentos não fornecem base suficiente para a ética, porque eles são transitórios e sujeitos a muitas variáveis na vida humana. Nossos sentimentos podem mudar dependendo das circunstâncias. O que nos deu prazer anteriormente pode deixar de nos dar prazer. No reino da vida mundana e materialista, essas variáveis têm consequências mínimas. No reino da moralidade, no entanto, elas podem ter consequências tremendas. Na medida em que a moralidade orienta nossas ações para com as pessoas, nossos princípios orientadores podem mudar com o nosso humor, caprichos ou circunstâncias se estiverem enraizados no sentimento ou no prazer; podemos não estar dispostos a dizer a verdade ou ser compassivos ou justos em nossas relações com as outras pessoas. Para Kant, fundamentar a moralidade em sentimentos ou prazer é construir nossa casa sobre areia movediça e, logo, arriscar tudo. Portanto, Kant busca uma base mais segura para a moralidade e acredita que pode encontrá-la na razão, na vontade e no dever propriamente entendido, uma vez que eles trabalham juntos na vida humana.

Em resumo, para Kant, não há possibilidade de o bem existir sem a boa vontade, e a razão existe em nós para desenvolver essa vontade, que é a capacidade do ser humano de agir por dever apenas, independentemente dos sentimentos, circunstâncias ou prazer. Kant passa a maior parte de seu tratado explicando esses três conceitos fundamentais da razão, da vontade e do dever, e como eles operam na metafísica dos costumes, a partir do qual os seres humanos podem codificar um princípio supremo de moralidade para orientar todas as deliberações e ações. Esse princípio supremo é chamado de imperativo categórico, que assume diversas formas no tratado, sendo o mais comum: "Eu nunca deveria agir exceto de tal maneira que eu possa querer que a minha máxima se torne uma lei universal"[vi].

O que tudo isso tem a ver com o valor inerente do ser humano? Para Kant, os seres humanos, como seres racionais, são possuidores, em sua natureza, da própria fundamentação da moralidade e, como tal, têm valor inerente. Com exceção dos seres humanos, como agentes racionais, não existe noção prática do bem moral, uma vez que não há outro ser que possa determiná-la de forma racional e aplicá-la universalmente. Um ser racional é um ser que, a partir de si, determina o que é a lei moral universal. Tal ser, que gera princípios de valor, é em si mesmo um valor ou um bem. Nas palavras de Kant, a "natureza racional existe como um fim em si mesmo”[vii].

Na verdade, Kant delineia uma versão do imperativo categórico que gira em torno disso: "Aja de tal maneira que você trate a humanidade, seja você mesmo ou outra pessoa, sempre como um fim e nunca simplesmente como um meio"[viii].Ele vislumbra um "reino de fins", isso é, uma comunidade organizada em torno de princípios morais em que os seres humanos, como agentes racionais e fins em si mesmos, legislam uma lei moral universal, sempre com uma visão dos seres humanos como fins em si mesmos, não só como meios. No reino de fins de Kant, as coisas têm ou um preço ou uma dignidade, um valor de mercado ou um valor inerente. Kant explica:

O que quer que tenha preço pode ser substituído por outra coisa como seu equivalente; por outro lado, o que quer que esteja acima de qualquer preço e, dessa forma, não admite equivalente, tem uma dignidade. O que quer que tenha referência a inclinações e necessidades humanas em geral tem um preço de mercado; ... mas o que constitui a condição sob a qual algo pode ser um fim em si mesmo não tem apenas um valor relativo, ou seja, um preço, mas tem um valor intrínseco, isso é, uma dignidade. Assim, moralidade é a condição sob a qual apenas um ser racional pode ser um fim em si mesmo, pois somente assim ele pode ser um membro legislador do reino de fins. Então, a moralidade e a humanidade, enquanto esta é capaz de moralidade, são as únicas que possuem dignidade. Competência e diligência no trabalho têm um preço de mercado; sagacidade, imaginação viva e humor têm um preço afetivo; mas a fidelidade, as promessas e a benevolência com base em princípios (não por instinto) têm valor intrínseco.[ix]

O valor humano não é negociável; não é uma coisa comprada ou vendida, ou algo de valor relativo, dependendo das condições de mercado. A formulação de Kant sobre os seres humanos permite a disposição humana "ser reconhecida como dignidade e colocá-la infinitamente acima de qualquer preço, com o qual não pode haver qualquer concorrência ou comparação, sem, por assim dizer, violar sua santidade"[x].Ele afirma que “a natureza racional é distinta do resto da natureza pelo fato de ser, em si mesma, um fim”[xi].Portanto, uma outra dimensão do imperativo categórico é que “um ser racional por si só deve ser a base de todas as máximas de ação e nunca deve ser utilizado meramente como meio, mas como suprema condição restritiva no uso de todos os meios, ou seja, sempre como um fim”[xii].

Como indicado anteriormente, os seres humanos são um fim em si mesmos, não meramente um meio para os fins de outros. Eles não podem ser usados apenas como uma ferramenta para assegurar os objetivos, a agenda ou a ideologia alheia.  Ao mesmo tempo que os seres humanos podem ser empregados naqueles esforços, eles não podem ser tratados como meros funcionários de um projeto. Eles são sempre um fim em si mesmos, portadores de valor inerente e dignidade, independentemente de qualquer vantagem ou benefício que proporcionem aos projetos ou interesses de qualquer outra pessoa.

Com tais afirmações, Kant faz declarações radicais para o seu tempo. Em certo sentido, ele promove uma conversa peculiar, no Ocidente, iniciada na geração anterior com os filósofos como John Locke, defensor uma estrutura governamental não enraizada no direito divino da monarquia, mas na vontade soberana dos governados, ou seja, as pessoas da comunidade política. A única maneira de tais argumentos tornarem-se possíveis e logicamente consistentes é se um valor significativo for concedido aos seres humanos como humanos. É importante notar, também, que a articulação do valor humano de Kant não era um fundamento religioso, embora o próprio Kant fosse cristão. Os argumentos de Locke não eram cristãos, apesar de sua própria religiosidade. Ambos se preocuparam em basear seus argumentos sobre o valor humano em termos não-religiosos, a fim de torná-los imunes aos caprichos da religião. Devemos lembrar que ambos pensadores viveram durante períodos de guerras religiosas em toda a Europa, quando as pessoas eram condenadas à morte porque sua religião diferia da do monarca, que governava por meio do direito divino, contra quem as pessoas comuns não tinham recurso para reparação de injustiças. Além disso, Kant tem ciência do sentimentalismo que muitas vezes acompanha a religião e, portanto, não vê a fé religiosa como uma base suficientemente estável para princípios morais que incluem a dignidade inerente a todos os povos. Ele escreveu todo um livro chamado A Religião nos Limites da Simples Razão, no qual tentou extrair a prática e convicção religiosa dos sentimentos e inclinações piedosas e, em seu lugar, relacioná-las exclusivamente ao cultivo de um caráter moral e a uma ação ética baseada em princípios firmes. A principal preocupação de suas obras é sublinhar da forma mais universal possível, por intermédio da razão possuída por todos os humanos, o valor inerente dos seres humanos, para que a estabilidade moral seja possível no mundo, independentemente das contingências da vida, incluindo mudanças de governo, conversões a novas religiões, gostos pessoais e afins.

O Iluminismo Ocidental, do qual Kant fazia parte, defendia essas noções de dignidade inerente ao ser humano, o que provocou mudanças sociais radicais a partir do século XVIII. Obviamente essas ideias não são exclusivas do Iluminismo Ocidental. Pensadores e escritores de várias partes do mundo articularam essas noções a partir de suas próprias tradições culturais, religiosas ou filosóficas. Estudiosos islâmicos de várias partes do mundo, por exemplo, fizeram interpretações do Alcorão ao longo de séculos, expressando tais noções sobre valor humano inerente e dignidade moral. O trabalho de Gülen é um exemplo de erudição islâmica que enfatiza que a “voz” do Alcorão insiste na beleza distinta e no valor dos seres humanos.  Na verdade, Gülen encontra, no Alcorão e em outras fontes islâmicas, fortes reivindicações sobre a dignidade humana vir em primeiro lugar; ele não faz tais reivindicações do Alcorão após determiná-las de outras maneiras ou por outras fontes. Gülen refere-se repetidamente a partes do Alcorão ao responder perguntas sobre jihad, violência, terrorismo e respeito pela vida humana em geral (não apenas sobre a vida dos muçulmanos). Nesse ponto de seu trabalho, a semelhança entre as ideias de Gülen e as de Kant tornam-se claras, embora eles certamente tenham desenvolvido suas respectivas expressões de valor humano inerente e dignidade moral a partir de perspectivas completamente diferentes.

Gülen, em todas as suas obras, fala do valor transcendente dos seres humanos. Ele inicia uma de suas obras com uma declaração poderosa:

Os seres humanos, o maior espelho dos Nomes, Atributos e Atos de Deus, são um espelho reluzente, o fruto mais perfeito da árvore da criação, uma fonte para todo o Universo, um mar que parece uma pequena gota, um sol formado como uma humilde semente, uma grande melodia, apesar de sua insignificante proporção física, e fonte de toda existência contida em um pequeno corpo. Os seres humanos carregam um segredo sagrado que os iguala ao Universo inteiro, com toda a sua riqueza de caráter; uma riqueza que pode ser desenvolvida à excelência.[xiii]

Ele afirma que “toda a existência se torna um livro legível apenas por meio do entendimento e previdência [dos seres humanos]... os seres humanos – junto a tudo que se encontra neles e ao seu redor – ... são as testemunhas leais de seu Mestre”[xiv] Ele termina a linha de pensamento dizendo, “quando todo o ilimitado Universo, com todas as suas riquezas, seus componentes e sua história se conecta à humanidade, fica claro porque o valor da humanidade transcende a tudo... De acordo com o Islam, os humanos são superiores pelo simples fato de serem humanos.”[xv] Assim, nessas passagens, Gülen sustenta que o maior valor dos seres humanos, ao contrário dos anjos ou dos animais, se dá por sua qualidade como testemunhas e intérpretes do Universo. Como testemunhas, eles são espelhos de certos aspectos de Deus, refletindo o Livro Divino do Universo. Sem eles, o Universo não seria conhecido, nem haveria ninguém que o conhecesse.

Em outras passagens, Gülen reitera que os seres humanos são o centro e o significado do Universo e que, como tal, possuem valor maior até mesmo que os anjos. Os seres humanos, por meio de suas atividades e entendimentos, dão essência à vida. Ele diz:

O ser humano é a essência e o elemento vital do ser, o índice e o elemento principal do Universo. Os seres humanos estão no centro da criação; todas as outras coisas, vivas ou não, compõem círculos concêntricos ao redor deles... Tendo em conta toda a honra que foi concedida à humanidade, em comparação com todo o resto da criação, a humanidade deve ser vista como a voz que exprime a natureza das coisas, a natureza dos eventos e, é claro, a natureza do Todo-Poderoso, Aquele que está por trás de tudo, além de ser entendida como o coração que engloba todos os universos. Com os seres humanos, a criação encontrou seu intérprete e a matéria foi destilada pela cognição das pessoas, encontrando [assim] o seu significado espiritual. A observação das coisas é uma habilidade peculiar dos seres humanos, ser capaz de ler e interpretar o livro do universo é um privilégio, e atribuir tudo ao Criador é uma bênção excepcional. Sua introspecção silenciosa é contemplação, o seu discurso é sabedoria e sua interpretação conclusiva de todas as coisas é amor.[xvi]

Assim, ao passo que Kant defende o valor inerente dos seres humanos com base na condição destes como agentes racionais, por meio da qual a lei moral vem a ser praticada no mundo, Gülen defende o valor dos seres humanos com base na posição destes como único agente por meio do qual o livro da criação de Deus pode ser conhecido, e as maravilhas da existência expressas. Em ambos os casos, os seres humanos, como indivíduos e como grupos, são indispensáveis para os constituintes fundamentais da existência, por um lado, a moralidade por meio da racionalidade humana, por outro lado, todo o conhecimento, sabedoria e amor por sua condição de espelho dos Nomes e Atributos de Deus.

Além disso, Gülen, assim como Kant, toma o valor e a dignidade humana como base para definir comportamentos legítimos e ilegítimos para com as pessoas na sociedade, embora Fethullah Gülen baseie seus argumentos no Alcorão, não apenas na razão, ao contrário de Kant. Em um trabalho sobre os direitos humanos no Islam, Gülen argumenta que o Islam tem a mais elevada concepção dos direitos humanos universais, não superada por qualquer outra religião, sistema ou comissão. Ele diz: "O Islam entende que matar uma pessoa é como matar toda a humanidade, pois, pelo assassinato de uma pessoa tem-se a ideia de que qualquer pessoa pode ser morta."[xvii]Gülen emenda essa declaração de maneira comum à maioria dos pensadores religiosos e filosóficos: talvez seja justificável a morte daqueles que assassinam outros, daqueles que tentam destruir a sociedade e assim por diante. Nesses casos, a morte não é um assassinato; é punição ou legítima defesa. Em outra passagem, ele diz que na visão islâmica:

O ser humano, seja homem ou mulher, jovem ou velho, branco ou negro, deve ser respeitado, protegido e é inviolável. Seus pertences não podem ser tomados, nem pode sua castidade ser violada. Ele não pode ser expulso de sua terra natal, nem sua independência pode ser negada. Ele também não pode ser impedido de viver de acordo com seus princípios. Além disso, ele está proibido de cometer tais crimes contra os outros. Ele não tem o direito de infligir danos a esse presente [a humanidade] que lhe é dado por Deus, pois só está em posse temporária dessa benção; Deus é o verdadeiro dono de tudo... Os seres humanos devem defender e manter esse presente seguro. Esse é um presente é sagrado; eles não o prejudicarão, nem permitirão que ele sofra qualquer dano. Quando necessário, eles lutarão e morrerão por tal dádiva.[xviii]

Gülen, aqui, se refere novamente à importância humana para Deus. A humanidade ou a existência humana é uma dádiva que não pode ser transgredida ou infringida. Como tal, ela é a base para ações positivas obrigatórias, como proteger as pessoas e mantê-las seguras, bem como para proibições contra ações nocivas, como prejudicar pessoas ou roubar sua propriedade. Gülen vê essas ações prejudiciais em oposição direta ao espírito do amor, o qual ele o identifica como o coração central do Islam. Ele diz:

Na verdade, o amor é a rosa em nossa fé, um reino do coração que nunca murcha. Acima de tudo, assim como Deus teceu o Universo como um laço no tear do amor, a música mais mágica e encantadora no seio da existência é sempre o amor.[xix]

Esse amor se traduz em um humanismo básico, em que as pessoas desenvolvem o amor dentro de si para os outros e para toda a criação e o demonstram pelo apoio e serviço ao mundo. Esse é o coração do Islam, diz Gülen. Infelizmente, no entanto, essa ideia foi ignorada ou deturpada. Ele explica:

O humanismo é uma doutrina de amor e humanidade interpretado de forma imprudente nos dias de hoje e tem um potencial de ser facilmente manipulado por diferentes interpretações... Deveria ser difícil conciliar o humanismo ao comportamento estranho de advogar "piedade e misericórdia" àqueles que estão envolvidos em anarquia e terror para destruir a unidade de um país, àqueles que cruelmente assassinam pessoas inocentes como parte de atividades centenárias que visam destruir o bem-estar de uma nação e, ainda mais horrivelmente, àqueles que fazem isso em nome de valores religiosos, e àqueles que acusam imprudentemente o Islam de permitir ataques terroristas.[xx]

Gülen aponta, aqui, para a profunda hipocrisia e violência em muitos movimentos modernistas que se dizem humanistas e menciona de passagem aqueles que fazem coisas igualmente horríveis em nome da religião. Em ambos os casos, perde-se a verdadeira "doutrina do amor e da humanidade", que fundamenta ambos em suas formas verdadeiras e autênticas. O Islam, em sua visão, compartilha com o verdadeiro humanismo um compromisso de amor à humanidade. A diferença é que o Islam busca esse compromisso na revelação do Alcorão, enquanto a filosofia humanista o deduz de outras fontes ou modos.

Claramente, Gülen ecoa o espírito da análise kantiana, apesar de vir de uma estrutura completamente diferente, ou seja, da visão religiosa-filosófica de mundo existente no Islam. O valor inato, até mesmo, sagrado da humanidade exige proteção universal e proíbe categoricamente qualquer transgressão a ele. No Ocidente, as ideias de Kant (e de Locke) sobre a dignidade inerente ao ser humano e sobre os direitos fundamentais encontram sua manifestação política na democracia liberal do estado-nação moderno. As sociedades muçulmanas atualizaram seu compromisso com a dignidade humana de outras maneiras. Apesar das diferenças entre o Ocidente e os países muçulmanos, Gülen não vê qualquer incompatibilidade intrínseca entre o Islam e a democracia em geral; os compromissos básicos para com os seres humanos e seus direitos essenciais, embora baseados em diferentes pontos de partida (um religioso, o outro, laico) são coerentes entre si. Gülen, no entanto, argumenta que o Islam pode melhorar a democracia em aspectos importantes. A democracia, no período moderno, diz ele, está relacionada a filosofias problemáticas, como o historicismo e o materialismo dialéticos, que ele vê como fatalistas. Além disso, as democracias podem engendrar um individualismo áspero que mina a saúde de toda a sociedade, embora Gülen afirme que, no Islam, "todos os direitos são importantes, e os direitos do indivíduo não podem ser sacrificados em prol da sociedade."[xxi] No final, Gülen afirma que o Islam é um conjunto abrangente de princípios religiosamente derivados que podem orientar a democracia, uma vez que ela continua a se desenvolver e a melhorar. Ele explica:

A democracia tem se desenvolvido ao longo do tempo. Assim como passou por muitas fases diferentes no passado, ela continuará a evoluir e a melhorar no futuro. Ao longo do caminho, ela será moldada em um sistema mais humano e justo, baseado na justiça e na realidade. Se os seres humanos fossem considerados como um todo, sem desconsiderar a dimensão espiritual de sua existência e as suas necessidades espirituais, sem esquecer que a vida humana não se limita a esta vida mortal e que todas as pessoas têm um grande desejo pela eternidade, a democracia poderia atingir o pico de perfeição e trazer ainda mais felicidade para a humanidade. Os princípios islâmicos de igualdade, tolerância e justiça podem ajudá-la a fazer exatamente isso.[xxii]

Claramente, Gülen vê falhas na democracia que o Islam pode resolver, particularmente nas questões sobre humanidade e como os seres humanos são entendidos. A democracia tende a ignorar as dimensões espirituais da vida em si e da natureza – peculiaridades que exigem respeito universal e reverência por parte dos seres humanos. Kant poderia questionar Gülen sobre isso, se por nenhuma outra razão, por afixar toda a sociedade, inclusive os sistemas de justiça e moralidade, a uma visão religiosa de mundo, o que significaria, na visão de Kant, coloca-la nas mãos de algo que não pode ser comprovado de forma racional e que, por recair no domínio da consciência ou da fé, não pode ser compelido sem violar a mesma humanidade que busca defender e reverenciar. Por outro lado, Kant, sem dúvida, ficaria satisfeito com os resultados de qualquer visão religiosa de mundo que atribuísse cada vez mais santidade e respeito aos seres humanos, de tal forma que o valor intrínseco destes fosse tomado como uma verdade sagrada. Ele simplesmente diria que tal visão de mundo não tem um fundamento firme como gostaria, uma vez que está baseada em sentimentos ou, em última instância, na indemonstrável fé.

Não obstante, acho seguro dizer que asserções sobre o valor inerente da dignidade moral dos seres humanos, seja por pensadores do Iluminismo Ocidental, seja pela interpretação do Alcorão por estudiosos islâmicos ou por outros de outra tradição qualquer, são vitais no mundo de hoje. Asserções, em si e por si, não significam nada. Como a história mostra claramente, as pessoas podem se organizar de todas as maneiras com bandeiras de “humanidade”, “direitos humanos”, “o homem comum” e, ainda assim, cometer atrocidades e até genocídios contra o mesmo ser humano que afirmam respeitar. Tal é a profunda hipocrisia e falibilidade que assola a vida humana. No entanto, quando os seres humanos se comprometem verdadeira e autenticamente com tais reivindicações e determinam suas ações a partir delas, a cultura e a sociedade tornam-se menos violentas, sangrentas e brutais. A história, além de nos mostrar perseguições e genocídios, também nos mostra que as sociedades que mantêm o valor humano inerente na vanguarda de sua existência política e cultural, garantem uma medida de paz e estabilidade para seus residentes e cidadãos, e tais sociedades existiram em todas as épocas e lugares da história humana. Quando essas mesmas sociedades desabam em perseguições e genocídios, na maioria das vezes, é porque elas abandonaram os princípios do valor humano inerente e da dignidade moral.

Ao afirmar o valor inerente e dignidade da humanidade, também afirmamos implicitamente as condições que preservam e sustentam essa humanidade. Valorizar a humanidade é comprometer-se com estruturas filosóficas, espirituais, sociais e políticas que cultivam a humanidade e levá-la, por meio de seu próprio crescimento e desenvolvimento, a sua atualização mais completa nos indivíduos e grupos. Uma daquelas condições é a liberdade – a liberdade de pensar, aprender, expressar-se e viver como nos aprouver. Esse é o tema do nosso próximo capítulo.



[i] Kant, Grounding for the Metaphysics of Morals (Fundamentação da Metafísica dos Costumes), 5.

[ii] Idem, 7.

[iii] Idem, 8.

[iv] Idem, 9.

[v] Idem.

[vi] Idem, 14.

[vii] Idem, 36.

[viii] Idem.

[ix] Idem, 40-41.

[x] Idem, 41.

[xi] Idem, 42

[xii] Idem, 43.

[xiii] Gülen, Toward a Global Civilization of Love and Tolerance (Por uma Civilização Global de Amor e Tolerância), 112.

[xiv] Idem.

[xv] Idem, 113.

[xvi] Idem, 116.

[xvii] Idem, 169.

[xviii] Idem, 114.

[xix] Idem, 8.

[xx] Idem, 8-9.

[xxi] Idem, 221.

[xxii] Idem, 224.

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