Fethullah Gülen, Confúcio e Platão sobre o Ideal Humano

Fethullah Gülen e Sartre sobre a Responsabilidade

Os dois últimos capítulos concentraram-se no ser humano ideal, conforme concebido por Confúcio, Sócrates e Gülen, e no papel que esses seres humanos ideais desempenham no governo do Estado ou da nação e na liderança da comunidade. Concluímos afirmando que os três pensadores eram humanistas no sentido amplo da palavra, principalmente, porque apoiam plenamente a ideia de que os seres humanos são capazes de realizar em si mesmos um ideal moral e intelectual; uma sociedade humana pode progredir como um todo até alcançar esse ideal em nível coletivo; e a educação é o mecanismo principal por meio do qual isso se cumpre. Toda a discussão ocorrida nos dois capítulos anteriores baseia-se em uma convicção fundamental sobre os seres humanos da qual Gülen trata ao longo da sua obra, dedicando-se a ela sobretudo em seus escritos: a ideia de que os seres humanos são responsáveis pelo mundo.

A responsabilidade humana pelo mundo, por sua própria vida e pela vida dos outros, pela sociedade e pelo futuro é um tema constante durante os séculos de humanismo e em grande parte do discurso religioso. Na verdade, os princípios fundamentais do humanismo em relação ao poder, à capacidade, à habilidade e à beleza dos seres humanos, individual e coletivamente, não têm sentido, ou ficam vulneráveis à acusação de vacuidade moral, a menos que sejam acompanhados de uma forte crença na responsabilidade humana pelo mundo. Afirmar o poder e a habilidade humana, no mundo, sem afirmar a sua responsabilidade de usar esse poder na criação das partes do mundo suscetíveis à intervenção humana parece, no melhor dos casos, ilógico ou, no pior dos casos, cínico. A filosofia humanista – ou seja, a crença na habilidade e na responsabilidade dos seres humanos como criadores do mundo de forma relevante – tem sido, portanto, o suporte por meio do qual as pessoas e as sociedades alcançaram alguns os maiores feitos humanos. Muitas das maravilhas do mundo na arte, na literatura, na arquitetura, na filosofia política e social, na medicina e em outros campos existem porque as pessoas acreditaram no poder de novas criações, no desenvolvimento de novas perspectivas e de novos avanços. Alguns consideraram seu poder algo dado por Deus ou deuses e seus serviços e realizações como adoração a Deus; Outros consideraram seu poder de uma perspectiva não-religiosa. Em ambos os casos, as pessoas reivindicaram seu poder, de onde quer que fosse derivado, assim como a sua responsabilidade de usá-lo para o bem da sociedade.

Para o último diálogo deste livro, sobre o tema da responsabilidade, eu poderia escolher o parceiro de diálogo de Gülen de uma vasta gama de humanistas das longas linhas de tradições tanto ocidentais como orientais. Muitos filósofos, escritores, estadistas, teóricos e pensadores de muitas épocas e de muitas culturas trataram do tema da responsabilidade em diferentes graus em suas obras. Até aqueles com forte compromisso teológico a um Deus Todo-Poderoso, Onisciente e Destinador poderiam compor a lista daqueles que afirmam uma forte noção de responsabilidade humana pelo mundo (o próprio Gülen está nessa categoria). Neste último diálogo, no entanto, escolhi o principal expoente de uma das escolas de filosofia mais influentes do século XX, um filósofo que defende mais que ninguém essa noção de responsabilidade humana sobre praticamente tudo. Esse filósofo é Jean Paul Sartre, pertencente à escola do pensamento existencialista.

Imediatamente surgem perguntas a respeito dessa escolha, perguntas legítimas que devem ser respondidas antes de continuarmos. Primeiro, parece problemático comparar Gülen a ateu como Sartre. Como poderia existir qualquer semelhança ou diálogo entre um ateu de um lado e um erudito muçulmano de outro? Por que quereríamos que houvesse um diálogo entre eles? Os ateus e os teístas, especialmente os monoteístas, acusam-se mutuamente e, portanto, não estão interessados em dialogar. É justamente por essa razão que esse diálogo deve ocorrer, nem que seja apenas nas páginas de um livro. A liberdade inerente à consciência humana, virtualmente, garante que ateus e monoteístas, e todos os graus de crença ou descrença entre ambos, continuem a existir no mundo tal e como o fazem agora e provavelmente como sempre o fizeram. As acusações mútuas entre ateus e crentes não fazem outra coisa senão minar a coexistência pacífica no mundo globalizado e surpreendentemente diverso de hoje. Não podemos permitir que acusações mútuas se tornem ou continuem a ser norma entre pessoas que discordam sobre questões de crença. Devemos encorajar o diálogo mesmo entre aqueles que parecem não ter nada a dizer uns aos outros.

Em segundo lugar, o próprio Gülen critica abertamente Sartre e o existencialismo. Em sua obra Esculpindo Nossas Almas, Gülen situa o existencialismo na larga lista dos “-ismos” aberrantes que arrasaram a Turquia e ocidente no final do século XIX e no século XX, junto ao marxismo, durkheimismo, leninismo e maoísmo. Gülen fala da juventude turca daquele período:

Alguns se consolaram com sonhos de comunismo e ditaduras de proletariado; outros sucumbiram a complexos freudianos; alguns perderam a cabeça para o existencialismo e se emaranharam com Sartre; outros disseram bobagens sobre o sagrado ao citar Marcuse; alguns outros desperdiçaram suas vidas entre os delírios de Camus.[i]

Claramente, Gülen não é um admirador do existencialismo nem dos dois defensores mais importantes deste, Sartre e Camus. Portanto, como e por que devemos inserir Sartre em qualquer tipo de conversa relevante com as ideias de Gülen quando Gülen tem um conceito tão baixo das ideias de Sartre? Essa é simplesmente outra versão da primeira pergunta. Gülen rejeita o existencialismo em muitos aspectos. Sartre, se estivesse vivo, rejeitaria muitas das ideias de Gülen. Contudo, isso não impede que haja um diálogo entre eles. Caso contrário, todo o projeto de diálogo, tão fundamental no Movimento Gülen, seria severamente debilitado, já que somente aqueles que estivessem de acordo poderiam dialogar entre si. Relações e respeito genuínos podem existir entre pessoas que discordam completamente em seus pontos de vista, como Gülen e Sartre ou qualquer outro crente e ateu. Além disso, Gülen pode cumprir a sua função de erudito muçulmano, obrigado pelo Alcorão a deplorar o ateísmo e a rejeitar as ideias dos ateus, mas ainda assim continuar a respeitar a pessoa pela mera razão de ela ser um ser humano que possui valor e dignidade inerentes. O diálogo é o meio pelo qual mantemos o foco na humanidade dos outros até mesmo quando, ou especialmente quando, discordamos firmemente de suas ideias. Encontrar pontos em comum em meio a diferenças radicais é uma estratégia demonstrada para coexistência pacífica entre pessoas que discordam grandemente entre si. Tais diálogos difíceis podem, na verdade, ser os mais importantes. Então, com isso em mente, voltemos a Sartre e a Gülen para ver quais ligações possivelmente existem entre suas ideias.

As ideias de Sartre e do existencialismo como um todo sofrem do mal da popularidade que o movimento existencialista possuiu em meados do século XX. Elas se tornaram tão populares como filosofia, tanto na França como no Ocidente, que se converteram em um modismo. O existencialismo foi e ainda é difundido em língua vernácula por aqueles cujas interpretações refletem uma compreensão popular e “de massa” das ideias nele contidas, em vez de por meio de uma leitura constante e minuciosa dos seus temas principais, conforme são expressos nas obras de muitos representantes daquela escola de pensamento. Isso se complica mais ainda pelo fato de que a maioria dos existencialistas não concorda entre si em todos os pontos, em alguns casos, em nenhum ponto. A maioria das pessoas vê Sartre, um dos mais prolíficos escritores daquela escola, como expoente central de toda a perspectiva existencialista, uma posição que ele aceita, até certo ponto, em algumas passagens de sua obra.

Sartre tinha plena consciência das interpretações limitadas e, com frequência, categoricamente errôneas do existencialismo, e das afirmações feitas na cultura popular sobre essa escola de pensamento como um todo. Ele faz referência a essas preocupações em um ensaio geralmente intitulado “O Existencialismo é um Humanismo” ou simplesmente “Existencialismo”, que forma parte de uma obra mais ampla publicada em 1957 intitulada O Existencialismo e as Emoções Humanas. Nesse excerto, Sartre identifica os principais erros cometidos pelas pessoas ao interpretar o existencialismo, ou na identificação das principais afirmações sobre a realidade humana. Conforme ele defende o existencialismo frente a essas asserções problemáticas, contemplamos uma visão da humanidade, no mundo, bastante distinta das interpretações mais comuns sobre o existencialismo. Sartre articula o tema da responsabilidade humana que inspira a ação apaixonada e a afirmação poderosa da habilidade humana de moldar o mundo. Sartre não chega a utilizar a palavra “dever” para descrever a relação dos seres humanos com o mundo que eles podem moldar. No entanto, o espírito da palavra está lá, mesmo a que a palavra em si não esteja. Aqueles que escolhem viver neste mundo sem se responsabilizar por ele, vivem uma vida menos que humana e são covardes. Essas afirmações e outras do tipo formam um núcleo de ideias que, por sua vez, assemelham-se profundamente a certos temas do pensamento de Gülen.

Sartre resume as acusações contra o existencialismo no início de seu ensaio e, posteriormente, define e explica sua versão dele. Enquanto explica os componentes básicos do existencialismo, Sartre responde às acusações mais comuns proferidas contra ele. As acusações são simples e bem conhecidas, baseadas no entendimento popular do existencialismo de que ele: encoraja a passividade e o quietismo; habita em e se deleita com tudo que é feio sobre a vida; nega a seriedade das realizações humanas. Em suma, as pessoas criticam e rejeitam o existencialismo ateísta francês porque elas o interpretam como um tipo de niilismo ou como uma celebração do nada. O nada existe em última instância – nenhum Deus, nenhum valor absoluto, nenhum significado fixo ou essencial para a vida ou pessoas. Portanto, não faz sentido tornar-se social ou politicamente ativo ou fazer esforços para melhorar o mundo ou realizar avanços no conhecimento.

Sartre rejeita e até zomba desse entendimento do existencialismo e dedica a primeira parte da sua resposta a essas acusações à defesa precisa do existencialismo. Ele diz que todas as variedades de existencialismo, cristão e ateísta, afirmam uma coisa em comum: a existência precede a essência. Sartre, como defensor da variedade ateísta, diz que essa afirmação é especialmente válida para sua versão do existencialismo. “Essência” aqui, refere-se a um propósito, significado ou natureza. A maioria dos objetos inanimados foi criado para cumprir um propósito ou um significado existente na mente de seus criadores. Um cortador de papel, por exemplo, passa a existir após seu inventor desenhá-lo e manufaturá-lo como resposta a um propósito, objetivo ou significado que o inventor tinha para o cortador de papel. O inventor precisa de algo para cortar o papel, mas nada existe para fazê-lo, então ele inventa o cortador de papel cujo propósito e significado de sua existência é cortar o papel.  Sua essência precede sua existência. A maioria das pessoas, diz Sartre, pensa em Deus desse modo com relação aos seres humanos; Deus criou os seres humanos para cumprir Seu propósito e o significado deles está ligado a esse propósito. Sua essência precede a existência, assim como o cortador de papel. Quer dizer, o propósito e a natureza são predeterminados por seu criador em ambos os casos. As entidades passam a existir e, no caso dos seres humanos, procuram conhecer o seu propósito a fim de alcançar a felicidade.

Sartre, no entanto, é ateu, o que significa que não existe um Deus em cuja mente o significado, o propósito e a natureza do ser humano – a “essência” humana – existam antes que Ele crie os seres humanos em si. Como não há um Deus, os seres humanos simplesmente passam a existir, atirados primeiramente à existência e, só então, surge sua essência. Para os seres humanos, a existência precede a essência, e esse é o primeiro princípio do existencialismo. Sartre explica:

O que significa dizer que a existência precede a essência? Significa que, antes de tudo, o homem existe, surge, aparece em cena e, só depois, se define. Se o homem, conforme concebido pelo existencialista, é indefinível, é porque, a princípio, ele não é nada. Só depois ele será algo, e ele próprio definirá o que será. Portanto, não há uma natureza humana, visto que não há um Deus que a tenha concebido. O homem não só é aquilo que concebe de si mesmo, mas é também apenas o que quer ser após esse empurrão para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo. Esse é o primeiro princípio do existencialismo.[ii]

Então, não existe significado ou propósito predeterminado para a vida humana, porque não existe um Deus que o tenha concebido. Os humanos simplesmente existem, são atirados à existência e devem dar propósito, significado e natureza a si mesmos. Já nesse primeiro princípio, vemos a semente da responsabilidade que Sartre semeia em sua filosofia sobre os seres humanos, especialmente pelo fato de eles enxergarem a existência como seres pensantes e, à medida que se desenvolvem cognitivamente, tornarem-se conscientes. Sartre continua:

O homem é, no início, um plano consciente de si mesmo, ao invés de uma porção de musgo, um pedaço de lixo ou uma couve-flor; nada existe antes desse plano; não há nada no paraíso; o homem será aquilo que planejou ser... Mas se a existência realmente precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Assim, a primeira ação do existencialismo é fazer com que cada homem saiba o que é e o faça tomar total responsabilidade por sua existência. E quando afirmamos que o homem é responsável por si, não significa apenas que ele é responsável por sua individualidade, mas por todos os homens.[iii]

Dois assuntos importantes para a nossa discussão emergem dessa passagem. Em primeiro lugar, a responsabilidade da qual Sartre fala ultrapassa qualquer ser humano individual e inclui todos os seres humanos. Essa afirmação está ligada ao entendimento de Sartre sobre a subjetividade; isso é, o tempo todo, os seres humanos estão ligados ao mundo, ao mundo humano, ao mundo dos seres humanos. Nunca podemos deixar esse mundo, deixar nossa humanidade, abandoná-los por uma perspectiva “objetiva” isolada do mundo e dos outros. Todos nós existimos, por natureza, no mundo com os outros, como parte do mundo, em um a humanidade comum. Portanto, quando fazemos escolhas de vida e nos responsabilizamos por criar nossas vidas, não estamos criando apenas para nós mesmos, estamos criando para todos, porque estamos todos interligados. Estamos enraizados na subjetividade. Escolher é impor a escolha não somente a nós mesmos, mas a todos. Sartre diz: “Ao criarmos o homem que queremos ser, cada um de nossos atos cria, ao mesmo tempo, uma imagem de homem como julgamos que ele deve ser.”[iv]

O segundo ponto importante da longa citação acima diz respeito à definição de Sartre sobre o ser humano. Na citação, ele distingue os seres humanos de "uma porção de musgo, um pedaço de lixo ou uma couve-flor." Os seres humanos não são meros objetos dentre outros objetos, deixados nas mãos do destino, dos caprichos dos instintos corporais cegos, do destino ou do tempo. Mais tarde no ensaio, ele torna a esse ponto com mais força:

Essa teoria é a única que dá dignidade ao homem, a única que não o reduz a um objeto. O efeito de todo o materialismo é tratar os homens, inclusive aquele que filosofa sobre ele, como objetos, ou seja, como um conjunto de reações determinadas, de maneira nenhuma distintos do conjunto de qualidades e fenômenos que constituem uma mesa, uma cadeira ou uma pedra. Nós definitivamente desejamos estabelecer o reino humano como um conjunto de valores distintos do reino material.[v]

Aqui, Sartre separa o existencialismo do materialismo, o qual Gülen e muitos outros que têm uma perspectiva religiosa rejeitam definitivamente, seja como um sintoma de doença espiritual, um aspecto do ateísmo, ou como uma explicação reducionista da vida humana. Sartre também o rejeita, embora por diferentes canais de argumentação. O existencialismo de Sartre não permite que as pessoas estejam no mesmo nível que as pedras, cadeiras ou musgo. Em vez disso, ele insiste que os seres humanos são muito mais que isso, não porque são feitos por Deus com um propósito ou significado, mas porque, desde o nascimento, exibimos claramente em nossas próprias vidas, a capacidade para a consciência, a consciência de si mesmo e a autoconsciência, que é diferente de qualquer outro ser vivo. Ao contrário de outros seres, pensamos, no sentido cartesiano pleno da palavra, o que inclui o autopensar ou o pensamento sobre o “eu”. Isso marca uma diferença categórica entre os seres humanos e todos os outros seres vivos. Além disso, é essa propriedade no ser humano que dá origem à criação de valores, ideais e propósito. Como pessoas nessa condição, enraizadas na subjetividade humana, devemos perguntar a nós mesmos, no início de cada ação, se estamos sendo honestos e responsáveis pelo mundo, "Sou realmente o tipo de homem que tem o direito de agir de tal maneira que a humanidade possa se guiar por minhas ações?”[vi]Sartre diz que não se fazer essa pergunta é viver no que ele chama de “má-fé” consigo mesmo e com o mundo.

Claramente, uma pessoa deprimida, cansada, passiva e isolada não é o que Sartre tem em mente como alguém que toma a responsabilidade por si e pelo mundo. Essa pessoa recusa a responsabilidade por sua própria vida e pela vida dos outros levando as mãos à cabeça de maneira cansada: “O que pode ser feito? Nada.” Muito pelo contrário, de acordo com Sartre, muito pode ser feito! Além disso, somos os únicos a fazê-lo, e "fazemos", mesmo quando nos sentamos e dizemos que não. Negamos nossa responsabilidade, dizendo que já nascemos dessa maneira, ou que não poderíamos evitar, ou que o destino decretou que assim fosse. Passividade resignada é o resultado de uma filosofia que abandona a vida humana ao destino e ao determinismo materialista. O existencialismo, por outro lado, rejeita o fatalismo e o determinismo materialista, ele vê toda a vida humana como uma arena para ação e responsabilidade, baseado na afirmação de que não há ninguém além de nós, seremos o que fizermos de nós mesmos, e o mundo será o que fizermos dele, nada mais e nada menos. Sartre passa boa parte de seu ensaio descrevendo as "marcas" de viver completamente com essa consciência de responsabilidade e de ação. Ele as rotula com três palavras: angústia, desamparo e desespero. Mal interpretados, esses conceitos nos deixam deprimidos e passivos. Corretamente compreendidos, eles nos lançam no mundo para tentar pôr em prática os melhores planos para nós e para o mundo.

Por angústia, Sartre refere-se simplesmente à experiência de viver em plena consciência da responsabilidade. Ele diz:

O que aquela [angústia] significa é: o homem que se compromete e se dá conta de que é não somente aquilo escolhe ser, mas é também um legislador, que escolhe ao mesmo tempo para si e para a humanidade inteira, não pode escapar do sentimento de sua total e profunda responsabilidade. Certamente há muitos que não estão angustiados; mas digo que eles mascaram sua angústia, fogem dela.[vii]

Fugir tanto da angústia quanto da noção de responsabilidade constitui má-fé na visão de Sartre. Ele afirma que qualquer um na posição de líder conhece essa angústia. Por exemplo, um comandante militar que escolhe levar seus soldados à batalha sabendo que da sua escolha depende a vida de seus homens. Evidentemente ele poderia evitar essa responsabilidade e passá-la a um superior com o argumento de que estaria apenas seguindo ordens ao levar os homens à batalha. No entanto, Sartre diz que o comandante interpretou as ordens e decidiu atuar ou não. Portanto, ele é responsável por sua escolha. Não sentir angústia nessa posição é não sentir responsabilidade. Além disso, sentir angústia não permite a inação por parte do comandante; ele ainda tem que escolher mandar ou não seus soldados à batalha. Longe de ser uma desculpa para a inação, a angústia é uma condição para a ação. Essa angústia, diz Sartre, não “é a cortina que nos separa da ação, mas é parte mesma da ação”.[viii]

O desamparo também é muito simples, diz Sartre. Por desamparo, segundo ele, “queremos dizer apenas que Deus não existe e temos que enfrentar todas as consequências disso”.[ix]Sartre rejeita a tendência modernista ocidental que se afirma ateísta, no entanto ainda age como se existisse um reino transcendente de moralidade, propósito e significado. Em tal esquema, Deus é um conceito ultrapassado a ser abandonado, mas os valores e propósitos fundamentados na existência de Deus podem, de alguma forma, ainda ter a mesma supremacia como se Deus existisse para que a sociedade possa prosseguir confortavelmente. Para Sartre, isso parece não apenas ilógico, mas também irresponsável. Ele diz:

O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incômodo que Deus não exista, porque toda possibilidade de se encontrar valores em um céu de ideias desaparece com Ele; já não se pode ter o Bem a priori, porque não há mais consciência infinita e perfeita para pensá-lo... Dostoievski escreve: “Se Deus não existisse, tudo seria possível”. Esse é o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe e, em consequência disso, o homem está abandonado, porque não encontra nem em si, nem fora de si algo a que agarrar-se. Não pode dar desculpas a si mesmo.[x]

A última frase é fundamental e é muito fácil de passar despercebida. Sartre não diz que deveríamos fazer tudo o que nos dá vontade porque, já que Deus já não existe, nada tem valor divinamente estabelecido e não há uma noção de Bem. Em vez disso, ele diz que quando vivemos plenamente conscientes desses fatos, claramente vemos que nós, não Deus, somos responsáveis por tudo. Não podemos abandonar os acontecimentos em nossas vidas ou no mundo à "vontade de Deus" ou ao "plano de Deus" ou a algo dessa natureza. Nós decidimos o que é bom e o que tem valor, não Deus. Nós sentimos a angústia que vem com essa posição, a incrível responsabilidade por tudo, o desamparo ou a solidão que é nossa no mundo. Não sentir isso ou tentar não o sentir é “apresentar desculpas” a nós mesmos.

Sartre chega ao ponto de dizer que, ainda que Deus exista, nossa situação humana não muda. Ele oferece vários exemplos, no seu ensaio, de crentes que vivem como se Deus tivesse escolhido o seu caminho, ou como se os valores que eles elegeram e praticam estivessem firmemente enraizados em Deus: uma mulher ouve vozes espirituais ordenando-lhe a fazer coisas; um estudante recebe a orientação de Deus para sua vida por meio de um sacerdote; um católico atua segundo os sinais que lhe chegam de Deus; um jesuíta vê a mão de Deus em todas as circunstâncias de sua vida. Em todos esses casos, Sartre diz que as pessoas se esquivam de sua responsabilidade, não porque se atrevem a acreditar em Deus, mas porque se recusam ver sua própria responsabilidade em sua crença. Não vêm que elas mesmas determinam o que é ou não é um sinal de Deus; se as vozes ouvidas são de Deus ou do diabo, se é correto ou não o que diz o sacerdote, como os textos sagrados devem ser interpretados e assim por diante. Mesmo se Deus existisse e enviasse anjos para falar conosco, enviar-nos uma revelação que escrevêssemos palavra por palavra, nós somos aqueles que decidem se os anjos merecem ser escutados e como as palavras devem ser interpretadas. No final, nós ainda somos responsáveis. Não podemos nos dar desculpas e não podemos fugir. Sartre, no final do seu ensaio, explica que o existencialismo não perde tempo defendendo o ateísmo, basicamente, porque ele não faz diferença com relação à responsabilidade humana. Ele diz:

O existencialismo não é tão ateísta a ponto de se desgastar mostrando que Deus não existe. Em vez disso, ele declara que, mesmo se Deus existisse, nada mudaria. Aqui está o nosso ponto de vista. Não que acreditamos que Deus exista, mas que o problema de Sua existência não é o assunto principal.[xi]

De qualquer modo, somos responsáveis pelo mundo, pelos nossos valores, intenções e propósitos. Não é possível escapar disso, e tentar fazê-lo é viver de má-fé com o mundo.

Finalmente, por “desespero”, Sartre quer dizer que devemos atuar, no mundo, como pessoas plenamente responsáveis, mesmo sem saber se os nossos atos alcançarão os resultados desejados. Não podemos, como Hegel faz, depender de um Geist [espírito] transcendental para guiar a história às metas cada vez mais elevadas das nossas ações. Também não podemos confiar na bondade humana inata ou na onipresença da Verdade, ou em alguma noção do tipo para garantir que nossas ações trarão o futuro que desejamos. Nada é garantido, Sartre diz:

Posto que os homens são livres e decidirão livremente sobre o que o homem será amanhã, não posso ter certeza de que, após minha morte, companheiros de luta continuarão meu trabalho e o levarão ao máximo da perfeição. Amanhã, após minha morte, alguns homens poderão decidir impor o fascismo e os demais poderão estar amedrontados e confusos o suficiente para deixá-los fazer isso. O fascismo será a realidade humana, tanto pior para nós. Na verdade, as coisas serão como o homem decidir que elas sejam.[xii]

Não podemos garantir que nossas ações darão frutos após nossa morte ou quando estivermos fora da arena de ação. Alguns diriam, então, que esse fato por si só justifica a inação e a passividade e perguntariam porque alguém deveria se incomodar e agir se é possível que nossas ações não gerem frutos. Novamente Sartre responderia que somos responsáveis. Permanecemos responsáveis por todo o mundo, mesmo que limitados por nossa própria mortalidade. Portanto, experimentaríamos o desespero. Sartre diz:

Isso quer dizer que devo me abandonar ao quietismo? Não. Primeiro, devo me envolver; depois, atuar segundo o velho adágio: “Sem riscos, não há ganhos”. Isso também não quer dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas significa que não devo ter ilusões e devo fazer o possível. Por exemplo, suponha que eu me pergunte: Tal socialização será realizada? Não sei. Tudo que sei é que farei o que estiver em meu poder para realiza-la. Além disso, não posso contar com nada. Quietismo é a atitude de pessoas que dizem: “deixe que outros façam o que eu não posso fazer. ” A doutrina que apresento aqui é exatamente o oposto do quietismo, pois declara: “Não há realidade senão a ação”. E vai mais longe ainda, porque diz: “O homem nada mais é do que seus planos; ele existe apenas na medida em que se realiza; portanto, ele nada mais é do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que sua vida”.[xiii]

Então, assim como a angústia, o desespero é uma condição de nossas ações e não pode ser desculpa para a inação se permanecermos responsáveis pelo mundo. A imagem nessa passagem é de pessoas que se entregam totalmente às tarefas, aos projetos e planos aos quais são mais comprometidas e nos quais encontram sua mais alta realização, sabendo o tempo todo que não há garantias de que a obra será concluída, mas sabendo também que são inteiramente responsáveis pelo mundo, não importa a angústia, o desamparo e o desespero.

É importante mencionar que ser responsável e ter angústia, desamparo e desespero não significa inerentemente uma vida de misérias. Sartre vai longe a ponto de dizer que o existencialismo é um tipo de otimismo, ainda que difícil. A vida com responsabilidades certamente envolve sacrifício e sofrimento, mas isso não equivale a miséria ao longo da vida ou a depressão. Viver com responsabilidade é ter uma vida de ação, realização, execução de projetos, uma vida de criações poderosas. Essa é realmente uma vida inventada e um mundo inventado; inventados por nós, pelos seres humanos, seres distintos de todos os outros por causa da nossa autoconsciência e de nosso domínio interno da avaliação e da consciência. A maioria das pessoas, é claro, ficam horrorizadas com a possibilidade de viver uma vida assim criada ou inventada. Elas não querem assumir total responsabilidade por suas vidas ou pelo mundo; preferem que o destino, Deus, as circunstâncias, a natureza ou a biologia sejam responsáveis por suas vidas. Confrontadas com o horror de sua responsabilidade, elas fogem em má-fé e se arremetem contra a escola de pensamento que afirma a sua responsabilidade.       

Sartre viveu como ativista social e político, filósofo, professor, soldado e cidadão engajado e coerente com essa ideia de responsabilidade. Sartre diz quase no fim de seu ensaio:

Portanto, acredito que respondemos a uma série de acusações sobre o existencialismo.  Vê-se que ele não pode ser tomado como uma filosofia de quietismo, uma vez que define o homem em termos de ação; nem como uma descrição pessimista do homem – não há doutrina mais otimista, uma vez que o destino do homem está nele mesmo; nem como uma tentativa de desencorajar o homem a agir, uma vez que diz a este que a única esperança está na ação e que a ação é a única coisa que permite ao homem viver. Consequentemente, estamos lidando aqui com uma ética de ação e de envolvimento.[xiv]

Gülen não rejeita Sartre pelos pontos de vista dele sobre a responsabilidade. De fato, há uma forte semelhança entre Gülen e Sartre sobre esse tema, apesar de estarem em desacordo em praticamente todo o resto. Como muçulmano e expressando as suas ideias a partir de um contexto islâmico, Gülen fala sobre assuntos como a representação e a responsabilidade humanas no mundo de modo paralelo ao de quase todos os teólogos das grandes religiões monoteístas quando tratam desses temas. De fato, esses assuntos prepararam o terreno para rica discussão, análise e debate ao longo dos séculos nas grandes religiões que postulam um Deus Todo-Poderoso e Onisciente. O cerne da questão é reconciliar a tensão entre a vontade e a providência de Deus de um lado, e a vontade e a ação humanas do outro. A maioria dos teólogos monoteístas, especialmente os que sustentam uma recompensa e um castigo eterno, não negam o livre arbítrio humano, pois fazê-lo negaria a responsabilidade humana por seus atos, o que poria em juízo a justiça da existência de um Céu ou um Inferno eternos como “recompensa” pelas ações humanas, uma crença fundamental tanto no Cristianismo como no Islam. Se os seres humanos não têm livre arbítrio, como podem ser castigados ou recompensados por suas ações? Por outro lado, postular uma representação humana plena e livre parece abalar a ideia da providência Divina. Deus não seria o diretor supremo do mundo se os seres humanos, no seu livre arbítrio, escolhessem outro caminho para si próprios. Portanto, essa tensão entre a providência Divina e o livre arbítrio humano recebe grande atenção por parte dos teólogos, e as tentativas de reconciliar essa tensão ou moderá-la são numerosas e variadas em todas as tradições.[1] Não é necessário discutir esse ponto aqui, exceto para dizer que essa tensão, ou questão, é o pano de fundo enquanto Gülen expõe suas noções sobre a responsabilidade humana no mundo. Portanto, ele nunca dirá, como Sartre, que os seres humanos são totalmente responsáveis pelo mundo como este existe na história, porque isso enfraquece a ideia de providência e decreto divinos, na qual ele acredita piamente. Gülen prega o Deus do Islam, o Todo-Poderoso, Onisciente Deus, Criador dos Céus e da Terra, aquele que conhece todas as coisas. Toda a realidade e existência é o que é por causa do decreto divino, e não há ser ou realidade fora do referido decreto. Esse compromisso de fé qualifica cada declaração que Gülen faz sobre a responsabilidade humana e é uma diferença fundamental, nas visões de mundo de Sartre e de Gülen, que resiste à mediação.

Gülen fala sobre essa questão de uma forma que nos ajuda a compreender como ele pode falar da "consciência de responsabilidade" da maneira que o faz em Esculpindo Nossas Almas e em outras obras. Ele fala desse assunto utilizando uma palavra-chave traduzida ao português como “regente” ou “representante”. Empregar essa palavra já indica, ao menos em português, que ele realiza um sutil equilíbrio em relação à providência divina e ao livre arbítrio humano. A regência significa administração, governo e responsabilidade, evidentemente. A palavra “representante”, no entanto, conota delegação de uma autoridade superior, até mesmo, por decreto. Aqui temos a perspectiva de Gülen em poucas palavras, junto com a de outros teólogos das tradições monoteístas que se defrontaram com o difícil desafio de reconciliar a divina providência e o livre arbítrio humano. O Onisciente e Todo-Poderoso Deus criou a existência por decreto, de tal forma que o mundo humano dentro dessa existência é afetado pela ação humana. As pessoas, ou executam bem essa tarefa ou não; e sofrem as consequências nesta vida e na próxima. Independentemente disso, os infinitos e, portanto, misteriosos (já que as nossas mentes finitas não podem compreender o infinito, porém, podem “chamá-lo” assim) planos de Deus para o mundo e toda a existência se cumprem. Mais uma vez, esse é um equilíbrio delicado que talvez não resolva totalmente a tensão entre a divina providência e o livre arbítrio humano, mas faz o melhor possível e preserva um lugar sério para a representação e responsabilidade humanas no mundo, que é o que nos concerne aqui.

Gülen baseia as suas afirmações em relação à representação humana no Alcorão (2:30): “Estabelecerei um regente na Terra”[xv]. Como regentes, os seres humanos são representantes divinos no mundo. Gülen diz:

Se o ser humano é o representante de Deus na Terra, o favorito de toda a Sua criação, a essência e o núcleo da existência na sua totalidade e o espelho mais brilhante do Criador – e não há dúvida sobre isso –, então, o Ser Divino que enviou a humanidade a este reino nos dá o direito, a permissão e a capacidade para descobrirmos os mistérios na alma do Universo, desvendarmos o poder, a força e o potencial ocultos, usarmos tudo para o seu propósito, e sermos os representantes das características que Lhe pertencem, tais como conhecimento, vontade e poder.[xvi]

Aqui, vemos Gülen conduzir o delicado equilíbrio mencionado anteriormente. Ele afirma de forma convincente que os seres humanos são tanto a criação quanto o espelho de Deus. As pessoas são tanto criaturas como reflexos, submetidas ao Criador e representantes d’Ele. Esta é a posição do representante: sempre submetido aos decretos de Deus, e sempre, pelo mesmo decreto, encarregado de representar e realizar o trabalho d’Ele no mundo, com as capacidades internas que espelham as de Deus. Gülen continua assim a explicar a representação humana:

A representação humana do Criador ocorre em uma esfera excepcionalmente ampla, que abrange atos que vão desde acreditar n’Ele e venerá-Lo a compreender os mistérios das coisas e as causas dos fenômenos naturais e, portanto, ser capaz de interferir na natureza... Esses seres humanos genuínos tentam exercer o seu livre arbítrio de um modo construtivo, trabalhando e desenvolvendo o mundo, protegendo a harmonia entre a existência e a humanidade, colhendo as riquezas da Terra e dos Céus para o benefício da humanidade, tentando elevar a tonalidade, a forma e o sabor da vida a um nível mais humano dentro da estrutura da ordem e das regras do Criador. Essa é a verdadeira natureza de um representante e, ao mesmo tempo, esse é o lugar onde o sentido do que significa ser um servo e amante de Deus pode ser encontrado.[xvii]

Observe a abrangência da ação humana no papel de representante, que inclui o reconhecimento religioso e a adoração, o conhecimento científico do mundo natural, modos de "interferir" ou manipular o mundo natural para fins positivos e o melhorar a vida humana de maneira cada vez mais enriquecedora e humana. Como regentes, os seres humanos são responsáveis por tudo isso. Eles têm que prestar contas a Deus, como agentes de campo, pelo cumprimento de suas obrigações nesses domínios. Gülen trata o tema da representação humana com muito detalhe em Esculpindo Nossas Almas e de modo mais enérgico e radical que em outras obras. No início do livro, ele trata da discussão sobre a providência divina e o livre arbítrio humano, e afirma, no final, o delicado equilíbrio que já citamos anteriormente. Ele acrescenta uma interessante reflexão sobre o livre arbítrio humano:

Deus nos concede livre arbítrio... e o aceita como convite à Vontade e Determinação d’Ele. O Senhor promete estabelecer os projetos mais essenciais com base na vontade, um plano que Ele implementou e continua a fazê-lo. Deus criou nossa vontade como uma ocasião para mérito ou pecado, como uma base para recompensa ou castigo, e aceita isso como um agente para atribuir bem ou mal... É por isso que Deus dá importância à nossa vontade e aos desejos e anseios da humanidade. Ele a toma como condição para construção e prosperidade desse mundo e do além, fazendo dela uma causa considerável, como um interruptor mágico para um mecanismo elétrico poderoso que pode iluminar os mundos.[xviii]

Portanto, Gülen afirma que o mecanismo da vontade humana estabelecida por Deus é o mecanismo que determina as realidades tanto deste mundo quanto da vida no além. Afirmar a importância suprema da vontade e da ação humana no mundo, em nada enfraquece a vontade de Deus; na verdade, a vontade humana é a confirmação e a execução da vontade de Deus no mundo, razão pela qual o abandono da humanidade, da fé, do conhecimento e da verdade é tão problemático. Afastar-se dessas coisas é abdicar do cargo de representação responsável e usar os poderes desse cargo para o mal, o que afeta a vida e níveis muito profundos, porque o domínio dessa responsabilidade inclui tanto a totalidade desta vida como da próxima, em resumo, toda a realidade.

Começamos a ver, então, o início do tom que Gülen adota ao longo de Esculpindo Nossas Almas. Um tom de paixão e urgência que convida as pessoas a assumirem plenamente esse título de representação e a carregarem nos seus ombros o peso da responsabilidade intrínseca a esse papel. Ao longo do restante do livro, Gülen trata em detalhe das características do caráter dos representantes, muitos dos quais comentamos nos dois capítulos anteriores, já que os representantes perfeitos são os “herdeiros da Terra”, as “pessoas de coração” ou as “pessoas ideais”. Aqui, no entanto, focaremos nas características de caráter que se relacionam diretamente com a responsabilidade pelo mundo. Uma dessas características é a ação, ou ser uma pessoa de ação. Gülen explica:

A ação é o componente mais importante e necessário de nossas vidas. Ao assumirmos certas responsabilidades por meio de ação e pensamento contínuos; ao encararmos e suportarmos certas dificuldades; ao sentenciarmos a nós mesmos a tudo isso, mesmo com altos custos, sempre precisamos agir e lutar. Se não agirmos como somos, seremos arrastados nas ondas causadas pela pressão e ações de outras pessoas, puxados para os redemoinhos de planos e ideias delas e, então, seremos forçados a agir em nome de terceiros. Permanecer distante da ação, sem interferir naquilo que acontece à nossa volta, sem ser parte dos eventos ao nosso redor e indiferentes a eles, é deixar-se derreter como o gelo que vira água.[xix]

Leitores astutos dar-se-ão logo conta das semelhanças entre Gülen e Sartre nesse ponto em particular. Gülen identifica aqui a ação como o componente principal da vida humana. Apenas por meio da ação nos tornamos herdeiros da Terra, como descritos nos capítulos anteriores. Sem ação, ou seja, sem nos envolvermos, sem assumir responsabilidade pelas coisas e sem suportar o sofrimento que a responsabilidade naturalmente envolve, abandonamos a nós mesmos às ações dos outros, abandonamos nosso papel como seres humanos e como regentes e escolhemos, em vez disso, uma vida pré-determinada ou determinada pelos outros, semelhante à existência de objetos inanimados ou de animais que vivem de acordo com o instinto projetado, em vez da escolha e da consciência. A nossa humanidade derrete-se quando nos negamos a atuar e a assumir as responsabilidades da ação. Em outra passagem, Gülen diz que escolher não atuar (o que, claro, é uma ação em si mesma, ainda que irresponsável) é escolher a morte: “O aspecto mais importante da existência é a ação e o empenho. A inércia é dissolução, decomposição e sinônimo de morte”.[xx]

Gülen diz que as pessoas de ação desempenham muitos papéis na sociedade: “algumas vezes, um patriota leal, um herói de ação previdente, outras, um discípulo devoto da ciência e da educação, um artista genial, uma pessoa de Estado e, certas vezes, tudo isso junto”[xxi]. Ele dedica todo um capítulo resumindo a vida e as obras de personagens recentes da história turca. O que os distingue e os une, segundo Gülen, é o incrível manto da responsabilidade que assumiram virtualmente sobre tudo; o chamado do Infinito que ouviram soar em suas consciências, dizendo que eles são responsáveis pelo mundo, e cada molécula do seu ser e a sua energia deve ser empregada no serviço ativo dessa incumbência. Gülen explica:

A responsabilidade deles é tal que tudo quanto adentre a consciência e a vontade consciente do indivíduo nunca fica de fora de suas mentes: responsabilidade pela criação e eventos, natureza e sociedade, passado e futuro, mortos e vivos, jovens e velhos, literatos e iliteratos, administração e segurança... tudo e todos. Naturalmente, eles sentem o peso dessa responsabilidade em seu coração. Peso que se faz sentir como palpitações enlouquecedoras, exasperação da alma, e que sempre compete por atenção... A dor e a angústia que surgem com a consciência da responsabilidade, se não forem temporárias, são oração e súplica que não é rejeitada, fonte poderosa de projetos alternativos e o caráter mais atrativo para consciências que permaneceram limpas e incorruptas.[xxii]

Essa é uma passagem extraordinária. Em primeiro lugar, percebe-se o domínio da responsabilidade: “tudo e todos”, incluindo o passado e os mortos. Nada que possa penetrar na compreensão ou na consciência está fora do domínio dessa responsabilidade. Se podemos pensar sobre algo que é real (não imaginário), somos responsáveis por ele. Em segundo lugar, percebe-se o sofrimento que acompanha a responsabilidade: “a dor e a angústia” que acompanham essa consciência. Gülen, nessa passagem, e em outras da mesma obra, fala das dificuldades internas que acompanham assumir seriamente o papel de regente ou herdeiro da Terra. Frequentemente, ele faz referência a Rumi, o grande poeta do século XIII que escreve eloquentemente sobre a dor e o sofrimento que acompanha o grande amor e o anseio angustiado pelo Amado, um sofrimento profundo. No entanto, o amante não desiste para evitar o sofrimento, já que o amor do Amado é a razão da existência e a alma da própria vida. Os representantes de Gülen são os amantes, e, nesse caso, o Amado é Deus; Sua criação, tudo e todos; toda a realidade que vem d’Ele. E amar o Amado é ser responsável por essa realidade, é um anseio, um sofrimento, uma palpitação do coração e uma consciência tremenda que nunca é evitada quando se está "apaixonado". O amante está condenado a isso como amante. Isso não é um obstáculo ao amor, é uma condição do próprio amor. Finalmente, a passagem mencionada indica que essa responsabilidade é o chamado para todos os seres humanos verdadeiros, e sempre que ouvem a “nota” desse chamado através do sofrimento, ativam mais projetos e planos. Gülen diz que as pessoas de responsabilidade amam tanto essa responsabilidade, que por ela renunciariam ao Paraíso.[xxiii]

A semelhança com Sartre é óbvia até mesmo quando reconhecemos que Gülen e Sartre geram suas ideias e trabalhos a partir de estruturas filosóficas completamente diferentes, tanto que parece improvável, à primeira vista, existir qualquer semelhança entre eles. O que está claro, porém, é que cada um deles, a partir de seus respectivos e diferentes pontos de partida, e dentro de visões de mundo divergentes, articulam visões paralelas da vida humana no mundo no que diz respeito à responsabilidade humana sobre o mundo. Ambos, Sartre e Gülen, despendem completamente suas energias intelectuais para destacar a urgente necessidade de as pessoas assumirem a responsabilidade pelo mundo e para reiterar o fato de que o mundo sempre foi e continuará a ser o que nós fazemos dele. Desse modo, tanto um quanto o outro, Gülen ou Sartre, poderia ter escrito estas palavras que figuram em Esculpindo Nossas Almas:

Toda e cada pessoa que tem um sentido sério de responsabilidade individual dirá: “Preciso fazer isso eu mesmo. Se eu não o fizer agora, na medida em que puder, então, provavelmente, ninguém mais o fará” e se apressará para ser o primeiro a fazê-lo, a levantar a bandeira.[xxiv]

Temos que confiar em nós mesmos e em nossos poderes, independentemente se acreditamos que eles vêm de Deus, como Gülen, ou não, como Sartre, e não devemos esperar que algo ou alguma outra pessoa faça o trabalho por nós. Empurrar a nossa responsabilidade para os outros é viver em “má-fé”, usando uma frase de Sartre que, curiosamente, se enquadra bastante bem na afirmação de Gülen sobre as pessoas de fé que rejeitam a responsabilidade: elas vivem uma “má-fé”.

Uma citação final de Gülen sela sua visão sobre a verdadeira vida e florescimento humano e ilumina com exatidão aquilo que deve ocorrer para que um mundo de bondade, verdade e liberdade para todos venha a existir, e o papel a ser desempenhado pelas pessoas para trazer esse mundo à existência. Mais uma vez, o espírito da citação assemelha-se ao espírito, e não à letra, das sensibilidades sartrianas. Gülen diz:

Na verdade, precisamos de mentes geniais que tenham uma vontade de ferro e sejam capazes de carregar o título de representantes de Deus na Terra. Pessoas que sejam capazes de intervir nos acontecimentos e desafiar o espírito órfão e o pensamento débil que não agregam importância à responsabilidade, valores humanos, conhecimento, moralidade, contemplação verdadeira, virtude e arte nesse território tão vasto. Precisamos de mentes refinadas e vontade de ferro que abracem e interpretem a criação em sua profundidade e inteireza e a humanidade em toda sua vastidão terrena e transcendente.[xxv]

O espírito profundo aqui é a bravura, a bravura da responsabilidade. Na nossa covardia e má-fé, fugimos de nossas responsabilidades por nossas vidas e pelo mundo. Com um espírito covarde e fraco, apresentamos desculpas a nós mesmos e culpamos a situação do mundo aos outros, ao destino ou às circunstâncias. O tempo todo, o mundo pesa sobre os nossos ombros, aceitemos isso ou não, assumamos, ou não, a responsabilidade. O mundo continua a pesar sobre os nossos ombros, ainda que escolhamos a morte ou a inércia, a vida de um musgo, de uma cadeira, de uma roca, ou uma vida inferior à que foi designada a nós por Deus, pela Natureza ou pela Existência. A vida autêntica, perante Deus ou perante a Vida, é uma vida de responsabilidade; aqueles que a vivem sofrem o desespero e a angústia, mas também são os seres que verdadeiramente merecem ser chamados de “humanos”. Eles têm vontades de ferro e corações valentes que lhes empurram à frente, em meio à sua aflição, para domínios muito extensos de responsabilidade por todos e por tudo. Esses indivíduos são verdadeiros heróis da humanidade e é sobre seus ombros que o mundo é construído. Como Gülen e Sartre afirmam, a sociedade humana sempre foi e continuará a ser o que os seres humanos fazem dela.



[1] As ideias de Gülen baseiam-se na tradição Hanafi/Maturidi, que, como algumas escolas de pensamento no Judaísmo e no Cristianismo, busca harmonizar a divina providência e o livre arbítrio postulando um plano divino que tem como premissa a presciência de Deus sobre as escolhas humanas.



[i] Gülen, The Statue of Our Souls (Esculpindo Nossas Almas), 35.

[ii] Sartre, “Existentialism” in Basic Writings of Existentialism (Existencialismo), 345.

[iii] Idem, 146-147.

[iv] Idem.                   

[v] Idem, 358.

[vi] Idem, 348.

[vii] Idem, 347.

[viii] Idem, 348.

[ix] Idem, 349.

[x] Idem.

[xi] Idem, 367.

[xii] Idem, 354.

[xiii] Idem, 355.

[xiv] Idem. 357.

[xv] Gülen, Toward a Global Civilization of Love and Tolerance (Por uma Civilização Global de Amor e Tolerância), 122.

[xvi] Idem.

[xvii] Idem, 124-125.

[xviii] Gülen, The Statue of Our Souls (Esculpindo Nossas Almas), 15.

[xix] Idem, 59.

[xx] Idem, 99.

[xxi] Idem, 68.

[xxii] Idem, 95.

[xxiii] Idem, 97.

[xxiv] Idem, 154.

[xxv] Idem, 105.

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